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NOITE NUA

Veste o casaco e sai a procura de ar fresco.
É noite, está frio e a cidade iluminada torna-se convidativa.
Mas... Esbarra em bêbados em frente aos botequins, apressa o passo entre os pivetes, prostitutas e travestís, desvia-se dos bêcos, corta caminhos... Enfim a praça!
Procura um banco, senta, acende um cigarro e olha para o céu nublado, sem estrelas e sem lua. Neblina ou poluição?
Um casal de adolescentes copula no banco ao lado. Parecem pertencer a classe média. Motel caro, liberdade ou libertinagem?
Num outro banco, mais afastado, alguém dorme envolto em jornais. É indefinível a idade, o tamanho ou o sexo. Se é criança, dorme esticada, se é adulto, dorme encolhido, se está drogado não sente o frio, se está com fome, desmaiou de fraco, se estava doente, jaz; sorte a dele!
Uma coruja se manifesta na árvore em frente: arrepio, mau agouro... Parece a morte chamando.
Levanta, esconde as mãos nos bolsos e passo a passo, vai se afastando entre desconfiado e assustado. Assaltos, assassinatos...
Apressa ainda mais o passo e vai pisando em guimbas de bagulhos, seringas e camisinhas usadas. Tropeça numa lata de lixo caída no chão. Foi um gato, um homem ou um cão?
A igreja está escura e apagada. E os padres? Orando, fragelando-se, dormindo? Nas escadas encardidas da porta central, uma mulher e um bebê dormem abraçados, fadigados, esfarrapados e alienados a tudo... Santo Deus!
Continua em frente, mas há algo de estranho na esquina adiante:
Sirenes, luzes piscando, carros estraçalhados, trânsito interrompido, guardas tentando controlar o cáos entre motoristas embriagados ou irritados.
Corpos na estrada. Mulher, criança... Entre as ferragens, uma Bíblia molhada. Gasolina? chuva fina? sangue?
Sai correndo para casa!
Sobe os degraus da velha escada de madeira e abre, aos empurrões, a porta parda. Por que é parda? Poderia ser azul...
Joga-se na poltrona, pasmo. De repente, chora. Solidão!
Sente então um profundo cansaço. Tira os sapatos e dorme alí mesmo, naquela poltrona velha, meio que dormente: nos pés, as meias, no corpo encolhido... O casaco!
RÚBIA BOURGUIGNON
Enviado por RÚBIA BOURGUIGNON em 15/09/2005
Reeditado em 15/02/2011
Código do texto: T50802
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
RÚBIA BOURGUIGNON
Vila Velha - Espírito Santo - Brasil, 55 anos
193 textos (20241 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 06:57)