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Andei lendo um soneto do meu colega Henricabilio (escritor em Lisboa) sobre a maçã (A maçã do paraíso). 

Como eu gostaria de saber fazer versos... Ele se baseou em Vinícius, que compôs "A pera". Os dois versos são metricamente corretos, provavelmente, dando forma a belos pensamentos. Não consigo fazer isso... 

Bem, então, eu faço crônicas. Lembrei de jaca.

A jaca é como eu: poucas pessoas gostam, mas as que gostam são viciadas nela. Portanto, eu TENHO que ser admiradora de tal fruta, certo?

Por falar nisso, eu acho que é a maior fruta do mundo. Ou não?
Ela tem as proporções de uma abóbora; feia e mole que nem uma fruta pão; com um cheiro adocicado e muito ativo.

Ela vem da Índia (chakha). Dificilmente os países da Europa vão saboreá-la, pois só vinga em lugares quentes, como é o caso da nossa Mata Atlântica.
 
Ela é quase que uma praga, pois prolifera fácil e rapidamente, tomando o espaço de outras plantas. Os culpados disso foram os portugueses que a trouxeram para o Brasil. Outra semelhança comigo...

Em qualquer lugar a jaca está. É só olhar na beira de uma estrada e encontrar na mata uma bela jaca jogada no chão ao relento. Ela fica lá quietinha esperando para ver quem é que vai se atrair por ela e a roubar.
 
Se a esquecem, o calor ativa seu cheiro e em algum lugar alguém vai dizer: “Hum... Que cheirinho gostoso de jaca”. Ou, então: “Arc! Que cheiro de jaca!”. Mas ninguém ficará indiferente a ela em momento nenhum.

A jaca pode até ser comum, mas, certamente, tem seus atrativos ou características. 

Os seus admiradores até se preparam, quando se dispõem a comê-la, pois a sua digestão é difícil. Não se come um pouco de jaca. A jaca é muito comida. Se é pra comer, tem que ser comida de verdade. Há até uma expressão comum no Brasil sobre ela: “Enfiar o pé na jaca”  (fartar-se, cometer excessos).

Ela é vitaminada: tem cácio, fósforo, vitaminas A, B, C, D, E.... (o alfabeto todo). Combate anemia, raquitismo e outras mazelas. Ninguém perdido no mato morre de fome perto de uma jaca. Quem dera muita gente tivesse uma jaquinha fofa lá nos cafundós do sertão. Não haveria fome neste país.

Faz-se com ela licores, aguardentes, geléias, doces. Sua semente pode ser cozida para amolecer ou ser torrada, ficando semelhante à castanha. Ou seja: ela é comida até o caroço.

Fui convidada para comer jaca  lá no Estado de Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil. Uma amiga naturalista é especialista em moqueca de jaca. Moqueca, para quem não conhece, é uma peixada. Só que esta moqueca não leva peixe. Ela jura que a jaca fica com o mesmo gosto do peixe pintado. Vamos ver...

Imaginem: a esta hora, há quem me leia e esteja apresentando náuseas. Outras podem estar extremamente curiosas, já com certa gastura de fome...

A jaca pode não ser elegante, mas é imponente. Ninguém que a queira  do pé vai achar fácil, uma vez que sua árvore tem imensas proporções. Geralmente os mais acomodados esperam que ela caia e decida a sua hora de ser colhida. Mas não é a mesma coisa. Faz-se maravilhas com uma jaca verde e só poucos sabem disso.
 
Ao mesmo tempo, ela é popular, simples, quase que esquecida - mas nunca, jamais vai acabar. Pode uma palmeira (com o seu tão visado palmito) ser extinta, mas a jaca vai sobreviver!

Podem falar mal dela. Eu gosto de jaca e conheço um monte de gente que até disputa seus gomos.

Sei não, mas a jaca me inspira profunda empatia...

Leila Marinho Lage
Rio, 26 de agosto de 2007

Página de Henricabilio
http://www.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=614387

 

Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 26/08/2007
Reeditado em 16/11/2009
Código do texto: T624376

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 58 anos
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