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Um Estranho Nas Minas

Quando o solitário pesquisador embrenhou-se pelos sertões desse país chamado Brasil descobriu uma criatura muito especial, mas nem um pouco lendária. Isso foi lá pas bandas das Minas Gerais, sô!

Em sua duríssima missão o urbanista subiu e desceu morros; esfolou o traseiro branco e macio em lombo de jegue; levou picada de mosquito e também de cobra. Teve a panturrilha mordida por cachorro bravo; passou sufoco com vaca de cria nova, e até se equilibrou sobre pinguelas escorregadias e outras inúmeras mazelas. 

Todavia, também se embriagou com o néctar das fontes de águas cristalinas do sertão. Por fim, descansou depois sob as lindas veredas de Pindorama.
Foram duríssimos dias até encontrá-lo, porém lá se achava ele; dono legítimo do seu habitat e por direito da própria natureza, era um verdadeiro rei sem coroa. 

Escarafunchando o chão pirambeirento de sua tão querida terrinha, nem percebeu quando o forasteiro se aproximou.
— Que vida hein companheiro! - exclamou.
O capiau saltou de banda como um raio e, já com sua melindrosa de 13” na mão direita, bufou assustado:
— Uai sô! O que o cê qué aqui seô moço?

O almofadinha amarelou e as palavras quase lhe fugiram da goela intalada, sem contar com os fundilhos quase molhados.
— Calma! calma companheiro porque sou homem de bem! Não vim aqui para cobrar impostos, nem tão pouco sou um atirador...

Mostrando a prancheta para o sertanejo concluiu:

— Quero apenas fazer algumas perguntas e sei que o Sr. tem condições de respondê-las. Pode ser!?
O matuto ajeitou-se melhor sobre as plantas dos pés descalços. Embainhou a melindrosa e direcionou os captadores de ruídos na direção do aparente viandante e perguntou a seguir em sua natural linguagem:
— O quié que o moço aí da cidade tem pra perguntá de tão interessante pra esse caboco cá da roça? 

Metendo as pontas sujas dos dedos sobre o peito esquelético e sem pêlos aguardou com firmeza a resposta, sem piscar os olhos arregalados. O sol estava a pino e era nítida a sensação exaustiva de calor. O suor escorria pelo rosto rosado do recenseador e denunciava a agonia daquele cenário tão insólito, porém real.

Adestrado pela educação do bom saber o calouro universitário desdobrou a língua sem ossos com perguntas avassaladoras. Falou da dívida externa, da interna, da fraterna e até mesmo do amargo café com leite na velha república. Aludiu com veemência a memória de Tiradentes à Jucelino. Ressaltou o menino de três corações, e até Drumont foi lembrado. 

Afinal, naquele momento ele também era um José! Nem assim conseguia ganhar a confiança do homenzinho que, postado diante do seu orador, fazia incansáveis trejeitos no rosto queimado e quase imberbe.

Descansava sobre uma das pernas, mudava para a outra. Acocorava; bufava; pitava; pigarreava, e de tempo em tempo coçava a região secular da genitália. Enfim, o infeliz manipulava quase todas as partes do corpo tentando contracenar com a seu argüidor. 

Nessas alturas o astro rei de Quinta grandeza demarcava mais ou menos quarenta e cinco graus perpendicular à linha do horizonte. E foi aí que o aprendiz de papagaio assegurou a última pergunta:
— Então me diga só mais uma coisa? O que o Sr. acha do nosso atual presidente da república?

Meio sem jeito como quase todo homem da roça ele inferiu:
— Pois é seu moço, aquel’home de tupete que todo mundo pensa que’le das bandas...

Naquele instante um ventinho quente tangeu para longe seu esburacado chapéu de palha deixando eriçados os pouco cabelos brancos que lhe restavam no cocuruto.

Não hesitou, praguejou tudo que tinha de direito.
Meteu depois o toco de cigarro de palha babada num canto da boca onde havia algumas falhas de dentes, e cuspiu pelo outro canto numa expressão de desdém. Mirando bem dentro dos olhos do indesejável sabagante deu início a tão desejada resposta.

— Pra dizê bem a verdade pro moço aí, o presidente do Brasil...
O sertanejo que nada tinha de besta fez uma careta que só mesmo um insigne expressionista poderia descrevê-la. E para a grande surpresa do imprudente e jovem recenseador, o humilde mineirinho que também não ostentava fama, visto pelo tamanho do chapéu, demonstrou sem querer como as aparências são enganosas. 

Não imaginava que o tal estudante desconhecia que o então Chefe de Estado viera ao mundo a bordo de um “Ita” enquanto dona Itália, sua querida mãezinha, fazia a viagem da Bahia com destino ao Rio de Janeiro. 

Depois concluiu em sua linguagem de trocista:
- Iiiiiiiiiiii...tamar! E o mais interessante disso tudo, el’é Franco!

N.B. No âmago de sua doce quimera o autor discerne:
Quaisquer semelhança com o tema não será mera coincidência. Entretanto, as personagens reais que integram esse grandioso país com dimensões continentais, tão pitoresco e heterogêneo podem até não estarem acima do bem e do mal, porém são esses heróicos seres que fazem dele o recanto deleitoso para todas as nações do mundo!

Exceto algumas raposas governistas!
16 de junho de 1994
Milton Cavalieri
Enviado por Milton Cavalieri em 23/10/2005
Reeditado em 19/10/2006
Código do texto: T62783
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Sobre o autor
Milton Cavalieri
Londrina - Paraná - Brasil, 62 anos
78 textos (13704 leituras)
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Milton Cavalieri