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3 CIDADES - 3 FRONTEIRAS - FOZ DO IGUAÇU

Foz do Iguaçu é a cidade mais a sudoeste do Paraná e apesar de ser muito famosa mundialmente por causa de suas cataratas; possuir belíssimos hotéis, o turismo está comprometido por causa dos altos preços dos vôos e a violência cada vez mais crescente que afugenta quem deseja conhece-la ou revê-la.
Esta crônica é a segunda e penúltima parte da trilogia 3 CIDADES – 3 FRONTEIRAS, na qual, semana passada, falamos de PUERTO IGUZÚ – ARGENTINA. Falarei tudo o que sempre vi, desde que a conheci ainda na década de 80; passando pelas tantas vezes que a visitei quando eu morava em Curitiba e da minha mais recente visita, na companhia de dois amigos.
Primeiro, é bom deixar claro que Foz do Iguaçu possui um belo aeroporto, cuja nomenclatura é de INTERNACIONAL, mas que fica boa parte do dia, ocioso, omisso e dormindo em berço esplêndido devido à localização nada estratégica. Não existem vôos diretos da maioria dos outros aeroportos e os preços, costumam ser 5, 6, até 7 vezes maior do que o preço para um trecho entre Salvador na Bahia para Porto Alegre no Rio Grande do Sul e a explicação, segundo um alto funcionário da TAM que não permitiu sua identificação, é que em Foz do Iguaçu é uma espécie de fim de linha. Raramente as aeronaves seguem adiante, rumo aos outros países da América do Sul e muitas vezes elas chegam com menos de 30 pessoas, sendo obrigadas a voltar com um número de passageiros também inferior a 50 pessoas ou 30% da capacidade.
Meu vôo foi Belo Horizonte – Rio de Janeiro (conexão) – Foz do Iguaçu, a bordo de um belo A320 da TAM com cerca de 60 outras pessoas. Do Rio de Janeiro até a cidade sinônimo de cataratas ou de muambas, são quase 2 horas prazerosas de vôo silencioso e tranqüilo e ao chegar, minha visão de geografia secundarista avistou o Rio Iguaçu, imponente e reinando do alto, “lingüando” as fronteiras entre Brasil, Argentina e Paraguai, mas a direção do avião apontava para ultrapassa-lo, o que me fez crer que estávamos em solo paraguaio, mas, para surpresa de todos, já chegando no limite aéreo de fronteira a aeronave faz uma manobra para o lado esquerdo, margeando o leito do rio e voltando na direção contraria para avistar o aeroporto que pousaria segundos após. Foi uma sensação incrível, indescritível e rara.
Mas vamos ao que interessa, afinal de contas, você não está lendo para saber das minhas experiências excitantes...
Foz do Iguaçu tem uma população de mais de 300 mil habitantes e uma miscigenação de dar inveja a Nova Iorque. São árabes, judeus, chineses, coreanos, paraguaios, argentinos, ciganos, mulçumanos, uruguaios e acreditem, até brasileiros. Para se ter uma idéia da importância da cidade para os mulçumanos, como um exemplo, é lá que fica a maior mesquita da América Latina.
O PIB per capita de Foz do Iguaçu, oficialmente é de pouco mais de 1 mil reais por habitante/mês, segundo o IBGE, mas a cidade abriga, senão a maior, uma das maiores concentrações da economia informal do Brasil. Todos, com raríssimas exceções, dependem direta ou indiretamente dos contrabandos oriundos do Paraguai e por conta disso, uma concentração de vigaristas, ladrões, assassinos, contraventores e policiais, isso mesmo, policiais de todas as categorias e níveis possíveis, encontram em Foz do Iguaçu uma imagem de Eldorado, onde tudo é possível e quase nada é punido. A grande prova disso é o reflexo financeiro através dos bancos. Com quase 400 mil habitantes e somente 18 agências bancárias. Maior parte do dinheiro circulante da cidade fica em mãos de doleiros do outro lado da fronteira. Com quase a mesma população e infinitamente mais pobre, Feira de Santana, na Bahia, possui atualmente 25 agências bancárias para um PIB per capita de R$ 416,00/mês. Fonte: IBGE
Não é difícil encontrar na cidade mansões de valor incalculável, carros de luxo de marcas alemãs e inglesas desfilando e gente rica aos montes, mas nada é declarado ao fisco, muito menos possui origem razoável. O povo que vive em Foz do Iguaçu diz viver em outro país, quiçá outro planeta, pois quase nada na cidade lembra as localidades convencionais do restante do Brasil. A influência hispânica e árabe é visível claramente em cada esquina, cada comércio, cada pessoa e até os carros, grande parte possui emplacamento em outros países.
É em Foz que se concentram os melhores e mais caros hotéis da Tríplice Fronteira e como o turismo convencional anda em baixa, as redes hoteleiras há anos direcionaram o foco de seus clientes para convenções nacionais e internacionais, até mesmo como uma forma de atrair mais visitantes. O resultado disso é que muitos estão cheios, mas nunca lotados, quase o ano inteiro.
Sair de Foz do Iguaçu em direção a qualquer um dos outros países vizinhos, é uma tarefa de criança. Ninguém é abordado, nem por amostragem, e o trajeto, seja para a Argentina ou Paraguai, acontece rotineiramente todos os dias, 24 horas por dia, sem o menor problema, daí, outra fama infeliz persegue a cidade, a de ser a porta de saída de carros roubados e entrada de drogas e armas, que abastecem o crime organizado no restante do Brasil. As barreiras mais comuns nos arredores da cidade acontecem para quem deixa o lugar. A polícia e o Governo estão mais interessados naquilo que sai da cidade, ou seja, dinheiro que abastece os “mensalões”.
Não fossem as cataratas e o comércio de produtos ilegais que chegam aos milhares do Paraguai, Foz do Iguaçu seria um reles povoado esquecido em um canto qualquer de uma fronteira brasileira. Suas ruas são sujas e o povo vê cifras ilegais estampadas nas caras de todos aqueles chegam, exceto nos “tiozinhos” amarelados que usam bermudas caqui, camisas floridas e tênis importados com meias até perto dos joelhos; portando sempre câmeras digitais a tiracolo; para estes, eles querem seus dólares.
Não há shoppings, comércio ou grandes industrias, mas em compensação, muitos escritórios de advogados, despachantes aduaneiros, guias turísticos e casas de prostituição as centenas. Mulheres do Brasil inteiro chegam em ônibus e aviões para ganharem a vida como “scort girls” nas casas noturnas da cidade e o público, acostumado a carteiras recheadas de “verdinhas”, normalmente são generosos e faz deste negócio, algo surpreendente e crescente. Uma amiga, juíza federal, que já morou em Foz do Iguaçu, me informou que o difícil  e´saber quem não ganha a vida no ramo de prostituição. Em muitos hotéis, existem DVDs com algumas das muitas mulheres que trabalham neste ofício milenar.
Isso é Foz do Iguaçu, a cidade brasileira sombria, feia e anormal, que faz fronteira com outros dois países e abriga a maior quadrilha brasileira de contrabandistas, traficantes, ladrões de carros e caminhões, embusteiros e psicopatas internacionais; que está sob forte vigilância dos Estados Unidos pelo volume monstruoso de tudo que abriga e encoberta, mas que possui uma das mais lindas cenas naturais do mundo inteiro, as Cataratas do Iguaçu.
No pobre roteiro turístico da cidade, além das cachoeiras e Parque das Aves está ainda a Usina Hidroelétrica de Itaipu, que pode ser visitada e mais nada. O restante dos roteiros está em cidades de outros países próximos. Existe também um comércio forte de pedras semipreciosas em formatos variados, normalmente artesanais, que são uma atração à parte para os turistas estrangeiros. Os visitantes até pensam que tais pedras são da região, mas que na verdade, a maior parte vem de Minas Gerais e servem apenas para dar mais enfeite as lojas que estão ao redor do Parque Nacional do Iguaçu.

ALGUMAS DICAS:
Se visitar Foz do Iguaçu, cuidado com os hotéis. Nem tudo que mostra ser, é de verdade. A cidade está cheia de hotéis que alugam quartos como depósitos de mercadorias. Normalmente, estes estabelecimentos são de péssima qualidade. Os bons e luxuosos hotéis, cobram muito caro; acima de R$ 500,00 a diária, dependendo da estação e do clima.
Foz do Iguaçu possui clima temperado variante, podendo estar muito frio ou muito quente. Em junho, eu passei frio de 2 graus abaixo de zero, mas nesta época do ano, é comum vermos 40 graus com facilidade. Em qualquer estação, a umidade relativa do ar é bastante alta, podendo chegar a 90%.
Na cidade, não sabemos ao certo quem é mocinho ou bandido, nem mesmo a polícia, portanto, cuidado com ostentações como jóias, dinheiro ou roupas de grife. Se pretender um dia conhecer as Cataratas ou até mesmo fazer umas comprinhas sem impostos no Paraguai, que o faça com a maior cautela. Num universo de quase 400 mil habitantes, é claro que existem milhares de pessoas de boa índole, mas, no caso de Foz do Iguaçu, elas estão ocupadas demais para perceber que isso; esta má fama, precisa mudar.
Somente a TAM e a GOL voam para Foz do Iguaçu com regularidade. As outras companhias aéreas são regionais. Existe uma linha de ônibus da Gontijo que sai do Nordeste e vai até Assunção no Paraguai; e de Curitiba, muitas empresas terrestres fazem o percurso que dura em torno de 7 horas e dista 640 km.
Internamente a cidade é bem sinalizada, sobretudo no centro, mostrando clara e objetivamente as direções para os pontos turísticos por meio de placas visíveis e aos montes, portanto, se preferir alugar um carro, não se preocupe em se perder.

Desculpem-me se eu os decepcionei com tantas informações ruins sobre esta cidade que é dona do maior santuário natural do Brasil, acessível a todos, mas é por este prisma que eu vejo Foz do Iguaçu e creio que haverá muitos anos ainda para eu escrever de forma diferente. E se me perguntarem se eu voltarei a visitar a região, eu digo que sim, afinal, tenho o maior carinho pelas Cataratas e quando volto, escolho ficar na Argentina, pagando pouco, curtindo mais e estando seguro.


Texto: Carlos Henrique Mascarenhas Pires
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Imperador Dom Henrique I
Enviado por Imperador Dom Henrique I em 15/10/2007
Código do texto: T695069
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Sobre o autor
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