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Telefonema obsceno

                Cheguei em casa, minha mulher com um bico destamanho!
                - Quifoi, Morzão?
                Ela deu uma suspirada antes de desfiar a ladainha:
                - Uma tal de Rhagala ligou e disse que queria falar com você!
                - Perguntou o que era?
                - E por acaso a fulana disse? Quando perguntei se podia deixar recado falou que era só com você!
                Rhagala? Que me lembre não conheço nenhuma Rhagala !
                E minha mulher estava irritada. Talvez nem fosse por isso. É que o fim de semana tinha sido agitado. Muito conversê, muita fofoca envolvendo meu nome. Noventa por cento mentiras deslavadas.
                - O que o senhor andou aprontando por aí?
                - Eu?
                - Não! O Papa! Eu já não disse que não quero essas vagabundas ligando pra minha casa!
                Nova suspirada antes de prosseguir:
                - Se o boneco aí quer aprontar, pelo menos tenha a decência de não dar o número do telefone de casa!
                - Mas, Amor!
                - Amor é a putaquipariu!
                - Ficou de ligar de novo?
                - Ah! Vai te catar! Sou lá obrigada a saber das suas tramóias!
                Vou ser honesto. Não sou o que se pode afirmar ser o marido perfeito. Tomo uns gorós vez em quando! Gosto de um joguinho de baralho! Esqueço de voltar no horário quando estou com os amigos! Mas sacanagem das grossas pratico não. Falta de grana e excesso de anos! E, carai, não conheço nenhuma Rhagala! Fosse uma Maria, uma Neusa, uma sei lá o quê, tudo bem. Mas com esse nome esquisito? Eu me lembraria.
                Comi um pão com mortandela e voltei para o trabalho.
                Meia hora depois minha mulher no telefone:
                - A vagabunda ligou de novo!
                Tentando ajeitar melhor a situação falei para ela pedir para a fulana ligar no meu serviço.
                 - Ah! Tá bom que vou avisar! O senhor vai ter de atender aqui em casa mesmo. E PERTO DE MIM! E desligou.
                 Passei a tarde inteira desconcentrado, tentando lembrar onde tinha ouvido o tal nome. Foi nessa hora que me arrependi amargamente de ter parado de pagar a Bina, para economizar uns trocados.
                 Fiz umas cagadinhas no serviço; o chefe deu umas broncas; não atendi direito um amigo do patrão( tenho certeza que assim que ele souber vou levar uma advertência); quase atropelo um moleque de bicicleta quando deu o horário do expediente; passei um sinal vermelho( ainda bem que não tinha guarda nenhum pra me multar); só consegui tomar dois chopes no happy hour. . . tudo por causa da maledeta da tal de Rhagala que cismou de ligar para minha casa. Que será que queria comigo? Pela brabeza da minha mulher , acho que não era nenhuma velha caquética, devia ser aproveitável ainda.Mas o que quereria comigo? Não sou nenhum trubufu de caroço, desses que a mulherada resmunga um Deusmelivre se sabem que me interessei, mas pra chegar a um décimo de Gianechini, tem muito chão! Muita visita ao Dr. Jerônimo, e olha que o homem faz milagres com um bisturi na mão. Já vi muita baranga se giselar nas mãos do milagreiro.
                 Cheguei em casa, nem o cachorro veio me receber no portão. Entrei. Minhas filhas- as duas – sacudiram a cabeça ao me verem. Minha esposa querida emesseneandeano com duas amigas, chegando a lenha em mim.
                 O que alguém sensato, sem culpa nenhuma no cartório, mais perdido que noiva de tarado em lua de mel, faria num caso desses?
                 Lógico que peguei uma cerveja na geladeira, botei o violão debaixo do braço e fui para a área dos fundos praticar um pouco os dorémis da vida. Acordes nas pontas dos dedos, a cabeça funcionando a mil, tentando descobrir qual piranha tivera a ousadia de ligar na minha sacrossanta morada e dar bandeira com minha esposa adorada!
                 Duas horas depois pedi uma pizza por telefone . Minha adorada esposa não havia se dignado a tirar a bunda da frente do computador para fazer o jantar, tão entretida estava em me detonar para as amigas.
                 Rhagala! Será que é alguma gostosa que frequenta o bar e gostou de mim? Vamos ver quem sempre está naquela espelunca. Tem a . . . como é o nome dela mesma? Não! Aquela tá de caso com o Santoro do Bradesco. Tem a. . . Essa também não! Namora o Sidnei que toca no Bar Barbas nos fins de semana.
                 Rhagala. Rhagala. Caralho! Num conheço nenhuma mulher com esse nome! Só faltava ser um dragão. Daquelas bem feiosas. Rum, acho que não! Pelo brabeza da véinha só pode ser filé! Ela não ia me deixar sem jantar e ficar sem falar comigo por causa duma mocréia desnaturada. Bem, se for bonita dá até pra arriscar um olho. Tenho dois mesmo! E aí a cara metade não vai ter razão de ficar tiririca comigo. Tenho culpa nenhuma. Ainda. Xô guardar essa merda de violão. Num sai nada que preste mesmo. Quem sabe tem algum programa aproveitável na televisão.
                 Ainda tentei argumentar com a emesseneana, mas sem resultado nenhum. Arrisquei um”se quer duvidar da minha honestidade tudo bem, mas respeite pelo menos minha inteligência” mas ela nem se dignou a me olhar. Fui pra sala me esparramar no sofá.
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                 Acordei com o trimtrimtrim do telefone nos ouvidos e uma dor lazarenta nas costas. Sofá filhadaputa.  Caraca! Estava sonhando com uma morenaça me mordendo a orelha e falando Rhagala Rhagala.  Percebi um pingo comprometedor na cueca. Não me falta mais nada mesmo! Velho com tesão noturna. O fim da picada!
                 - Pronto!
                 - Gostaria de falar com o senhor Pereira.
                 - Sou eu mesmo! Quem fala?
                 - Rhagala.
                 - Quem?
                 - Rhagala. Do Santander.
                 - Foi voce que ligou diversas vezes aqui pra casa?- murmurei, um leve estremecimento tesal nas partes baixas.
                 - Sim senhor!
                 Pronto. Agora descobriria se havia valido a pena a dor nas costas, o mau humor da patroa e a as broncas do chefe.
                 - E o que deseja comigo? A gente se conhece de onde?
                 - Liguei para saber se gostaria de fazer um seguro de vida conosco? Temos diversas vantagens como poderá ....
                 - Ah! Vai tomar no cu! Me acordar as nove da madrugada pra oferecer essa bosta!
                 E tasquei o telefone no gancho com tudo.
                 O negócio agora era explicar o mal entendido para minha mulher. Mas será que vai acreditar?
Nickinho
Enviado por Nickinho em 31/10/2007
Código do texto: T717497
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Sobre o autor
Nickinho
Ibitinga - São Paulo - Brasil, 64 anos
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