Serenata de Amor
(Dentro do Bombom)


Hoje eu vim preparada para escrever sobre um tema médico e coisas afins, mas ontem e hoje aconteceram coisas tão legais que eu fiquei meio romântica...

Deve ser muito difícil acreditarem nisso, mas foi verdade - não sobre o meu dia ter sido legal, mas que eu fiquei romântica...

Já repararam que quando a gente fica romântica, também fica meio imbecil? As pessoas ao lado nos acham retardada. E ficamos! Graças a Deus... Então, vou falar sobre coisas amenas hoje.

Ontem atendi uma senhorinha que está sob acompanhamento de uma doença grave, letal - nada ameno até aqui...

Ela e seu marido, muito idosos, sempre aparecem com uma caixa de bombom para mim e minha secretária. Desta vez, ele me deu um bombom apenas e ficou com carinha de triste, tentando justificar a "pobreza" do presente.

Eu só como bombom nestas ocasiões. Nem lembro que chocolate existe na face da terra, e, mesmo estando em eternas dietas, eu faço questão de comer o que a pessoa me dá na sua frente, nem que seja um pedacinho. Pior é quando me aparecem com verdadeiras obras-primas da gula justamente antes do jantar... Dá vontade de devorar!

Enquanto a paciente falava sobre seus dramas, meu paladar (mais especificamente, meu olfato) se deliciava com um Serenata de Amor.

Durante o tempo em que ficamos sentados, eu amassava o tão famoso plástico (antes, papel laminado) amarelo e vermelho. Se não fosse o plástico, certamente eu estaria sacudindo uma caneta ou o meu pé, pois eu não paro.

Dizem que eu sou taquipsíquica e taquicinética. Não sabem o que significam estes termos? Nem precisam, porque eu não sou nada disso. Eu sou normal.

Pensei comigo mesma sobre o que pensariam outras pessoas sobre uma médica atendendo, comendo bombom e amassando um plástico barulhento na frente de um casal de velhinhos, mas justifiquei para mim mesma: "Quem vê cara não vê coração".

Subitamente observei os corações do invólucro do bombom (agora possui também corações e anjinhos na face interna). Nestes desenhos li duas frases, tal qual fazem com os biscoitos da sorte orientais:

"O beijo é a menor distância entre dois namorados".

"Se você ama alguém, fale. Corações podem ser partidos por palavras que nunca foram ditas".

O senhor me olhou curioso e perguntou: "O que caiu pra senhora?...".

Assim também era demais! Informalidade tem hora! Mas li mesmo assim... Ele disse: "A senhora precisa amar e ser amada".

Eu me levantei e disse para a minha cliente: "Está na hora do exame. Por favor, queira se trocar".

Hoje, ao lembrar daquela consulta, percebi o quanto as frases me tocaram, ainda mais o que o senhor me falou. Súbitos momentos, movidos basicamente por sentimentos e sensações, mesclados ao cotidiano. 

O Serenata de Amor já esteve tão presente na minha vida, no meu passado, que eu me surpreendi devaneando numa situação tão exótica sobre coisas que eu já achava perdidas, que é a minha capacidade de amar e sonhar.

Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 19/02/2008
Reeditado em 24/03/2010
Código do texto: T866901
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