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Um olhar para sempre na lembrança



Vira e mexe encontro com alguém que fez parte do meu passado e de quem não recordo. Às vezes até houve uma convivência maior e nada. Reuniões de negócios, a maioria delas, desapareceram, estão jogadas em algum arquivo morto mental. Não fazem falta. Reuniões longas, importantes, onde decisões foram tomadas, nada, simplesmente sumiram. E digo novamente, suas lembranças não fazem falta.

Por outro lado há instantes para sempre marcados na lembrança. Frações de segundo, poucos segundos, alguns reles minutos, até hoje estão impressos de forma indelével nessas partes da  memória  às quais a gente sempre tem acesso garantido, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Vai ver são os “fora-de-estrada” cerebrais.

Tínhamos combinado com o comandante descer em Humaitá, estado do Amazonas, margem esquerda do Rio Madeira. Final de fevereiro ou começo de março, não lembro e não quero consultar agendas, o rio estava cheio, monstruoso, veloz. Suas águas cor de barro desciam rápidas em direção ao Amazonas, coalhadas de galhos e troncos e até árvores inteiras, algumas gigantescas, justificando o nome que os primeiros brancos lhe deram. Águas das chuvas amazônicas e do degelo andino, um mundo de água.

Passamos nossa bagagem para a pequena voadeira do empurrador numa manobra que não chegou a ser arriscada, mas que exigiu perícia do piloto, mantendo o motor acelerado no ar, esperando o momento de tocar a água e igualar a velocidade do pequeno barco à do grande comboio. Risco mesmo era um galho ou tronco malandro escapar por baixo das barcaças e aflorar de repente ao nosso lado, talvez batendo no barco ou, pior, no motor. Nada disso aconteceu e pouco depois afastávamo-nos do comboio. Ganhamos velocidade e tocamos para Humaitá. Queria descer logo, a tempo de gravar a passagem das milhares de toneladas de soja a caminho de Itacoatiara e de lá para algum lugar do mundo.

O porto de Humaitá é um barranco onde as gaiolas e canoas encostam. Quanto mais cheio o rio, mais fácil e perto do comércio. Quanto mais seco, mais distante e às vezes complicado para chegar aos barcos. Em alguns pontos, passarelas mambembes, baloiçantes e sem apoios, fazem o caminho sobre a água. Quando saí de uma das passarelas dei de cara com ela.

Guria ainda, índia, rosto bonito e olhos escuros, grandes. Antes de me deter em seus olhos tinha olhado para ela como um todo. Uma grande trouxa de pano na cabeça, uma sacola pesada numa mão e na outra mão a mão de uma menina menor que ela. Talvez irmã, talvez filha, difícil saber sem perguntar. Por onde eu tateava temeroso, ela caminhava sem dificuldade com trouxa, mala e a menina ao lado. Eram as compras feitas na cidade, enorme para quem mora num barraco à beira de um igarapé perdido na mata. E agora era a  hora de voltar para casa, pela gaiola, que no dia seguinte ou no outro ou no outro ainda, pararia na boca do igarapé para os passageiros descerem, passando para uma canoa ou duas e indo, então e finalmente, para casa.

Por uma fração de segundo, por poucos segundos, talvez, nossos olhares se encontraram. O meu, não sei, talvez admirado, mas o dela nada demonstrou, talvez, quem sabe, certa curiosidade e diversão por ver aquele sujeito de outras terras  andando na passarela sem saber como, com medo de cair na água rasa da beira do cais. Sei lá, acho essas histórias de olhares significativos ou que dizem isso e aquilo coisa de literato, coisa de poesia. Para o meu jeito troglodita de ser, às vezes é difícil entender até as palavras de outros, quanto mais olhares!  Porém, por algum motivo, aquele instante congelou-se em minha memória, me deixou marcado. O olhar de uma guria com um terço, talvez, de minha idade. E quanto mais penso mais me convenço que, mesmo tão nova, já mais vivida, já mais senhora das coisas da vida do que eu.

Passamos um pelo outro, ela para a gaiola e eu para o alto do barranco. Mecanicamente, instruí o pessoal sobre o que eu queria, bem a tempo, pois, rio acima, apontavam as proas das barcaças ponteiras. Meu olhar se dividiu entre o comboio passando veloz com sua carga no rumo do mundo, e a gaiola se afastando lentamente, com seus passageiros indo para suas casas em pequenas vilas perdidas nas margens dos rios ou casas ainda mais perdidas e escondidas pela floresta nas margens de pequenos igarapés. Sobre ela só tenho pensamentos imaginados e nada sei. De concreto, apenas seu olhar que me acompanha até hoje.

O olhar de um mundo em tudo diferente do meu.
Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 07/01/2006
Código do texto: T95611
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
14 textos (391 leituras)
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Emerson Gonçalves