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Uma casinha no alto de um morrote



Na beira da Dutra, sentido do Rio, num certo momento dá pra ver uma casinha de roça, bem de roça mesmo, no alto de um morrote, daqueles de desenho infantil, bem regular, arredondado e cercado por outros morrotes, alguns, um pouco maiores, já mais para morros. Olhando da estrada, parece que a casinha está toda cercada pelos morros, menos pelo lado onde estamos. Pra chegar até ela a subida é meio braba, dá pra saber só de olhar, assim, de longe mesmo. Como toda casinha de roça, essa também não tem varanda. O sol bate direto por onde tem de bater. O vento açoita do jeito que bem entende. A sombra, nos dias de calorão brabo desse Vale do Paraíba, é só uma lembrança, uma imagem vista ao longe, ou vivida dentro da casinha, mas aí já não é sombra, é penumbra. E não é fresca, é quente, pois não há varandas. O morrote e os morrinhos em volta não têm árvores. Nada, nenhuma, só capim, e mesmo assim é um capim meia-boca e acho que aqui casa bem essa expressão com o capim, pois, com sorte, enche meia boca de uma vaquinha, que é vaquinha só por não ter um capim bom, um capinzão, senão seria vacona. Tudo combina.

Há anos passo por ali, mas geralmente lá por cima, pelo alto, acima das nuvens, olhando as páginas de um livro ou de uma revista,  e a terra e os morros e as estradas e as gentes lá de baixo são apenas lembranças, e mesmo olhando pela janela geralmente só se vê nuvens e mais nuvens, até a terra passa a ser lembrança.

De carro, no chão, comendo asfalto e derretendo no calorão do Vale, tudo é diferente. A casinha fica ali, e mesmo longínqua enche os olhos com sua singeleza, sua pobreza, sua falta de varandas, sua simplicidade, nome elegante para pobreza. Não faço idéia de quem mora ali, se está ali há muito tempo, há tanto tempo quanto eu passo pela estrada. Pode ser  alguém que há pouco veio e logo irá embora, em busca de outra casinha, quem sabe, agora, num pé de morro, sem precisar subir toda aquela subidona, ainda mais comprida e braba se for de dia, e o sol estiver castigando como gosta de castigar por essas bandas. Nunca vi uma antena de televisão na casinha. Pensando bem, nunca vi postes com a fiação que leva a luz e leva a força. O que farão seus moradores noite após noite sem a telinha pra ver a vida passar e ser vivida ou representada por outros? Ficarão, talvez, do lado de fora, ou debruçados na janelinha, olhando retalhos de vida que passam a cento e vinte na estrada? Vidas motorizadas, ora vindo de São Paulo e indo pro Rio, ora vice-versa.

Vidas velozes.  A estrela que a gente vê na telinha de casa representando a vida talvez esteja passando pela casinha bem agora, reclinada, porque estrelas se reclinam ao contrário de mortais comuns que se sentam, e olhando a paisagem ela vê aquela casinha isolada de tudo e de todos, no alto de um morrote cercado de morros. E eu aqui, deixo de olhar a telinha e olho pra casinha, com os olhos da memória, e o ciclo se fecha, casinha, estrada, vida, sonho.

Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 13/01/2006
Código do texto: T98270
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
14 textos (391 leituras)
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Emerson Gonçalves