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Uvas pra Sarah Jessica



Há algum tempo já não vou pros sertões do Nordeste. Outros são os sertões que tenho percorrido nessa Terra de Vera Cruz. Sertões que me são queridos, não há como negar. Cheios de água, cheios de lavouras e pastos, ainda com matas, matinhas, brejos, capoeiras. Sertões de matas e de cerrados, por onde caminho sempre atento a um encontro indesejado com algum de seus moradores rasteiros e venenosos. Sertões onde a visão de um buritizal é sempre um refresco, e não só pros olhos. Olho pra carranca que protege a entrada da minha casa. Bate a saudade e as lembranças se instalam, sem pedir licença nem nada. Simplesmente chegam, se acomodam e me vejo transportado para uma tarde domingueira em pleno Velho Chico.

O convite foi irrecusável, era aceitar ou aceitar. Aceitei. Deixamos o hotel e fomos pro Iate Clube ou algo parecido. Não recordo o nome. Entre outras lanchas bonitas e de presença, a de nosso anfitrião logo me chamou a atenção. Bela lancha, faria bonito em Angra, Ubatuba ou Ilhabela. Éramos uns 8 a bordo. Subimos o rio até uma ilha já cercada por outras lanchas, barcos, lanchinhas, canoas e a praia ocupada por vendedores ambulantes, carrinhos, barracas e clientes. Fregueses, combina melhor. O sol do sertão castigava. Em pleno inverno, pelo menos uns trinta graus à sombra. Se sombra tivéssemos, claro. Num caso como esse, diz a prudência e a sabedoria genética preservada de tempos menos tecnológicos, o jeito é se enfiar dentro d’água e por ali ficar. Assim fazem porcos e búfalos, animais espertos e inteligentes. Não me considero tanto assim, e menos ainda como tal sou considerado, mas fiz o mesmo. Alguma má língua diria que eu parecia um hipopótamo num rio africano qualquer... Pura maledicência, motivada, quem sabe, por pequeno excesso de peso.

Aquelas águas vêm de longe. Das montanhas e do planalto mineiro, das veredas do grande sertão que ocupa Minas e Bahia em boa parte, desce do planalto baiano vizinho de Tocantins, onde a soja já impera, dividindo espaço com o algodão e as lavouras sempre verdes de café. Olhando, ninguém diria, mas são águas poucas. Lentamente, ou rapidamente, dependendo do ponto de vista, seu volume vem diminuindo. Lá bem pra baixo, rio abaixo, como as águas doces diminuíram, quem tem subido mais e mais é o mar. Provavelmente, de tanto os bichos-grilos ficarem pelas praias cantando que o sertão vai virar mar e o mar virar sertão, o mar acreditou e está tentando fazer sua parte. E, se acontecer, não será um virar e sim um revirar, pois esse sertão todo já foi mar, é só escavar e encontrar os fósseis.

Almoçamos na ilha. A muito custo deixo a água e me abrigo sob um guarda-sol. Vem peixe, vem pirão, vem mais peixe, mais pirão, vem arroz, traz mais pimenta, por favor, só não sei bem pra que, acho que pra decorar a mesa, só pode ser. Cerveja não vem, simplesmente parece brotar do nada, por mágica. Ou por geração espontânea, contrariando toda a ciência oficial. E vem gelada, a danada. Não há como resistir. Mas há que resistir, sim, às muitas e belas visões em biquínis sumários, transplantados, só os biquínis, diretamente de Búzios, Guarujá e Ipanema. Em meio aos comes e bebes na beira d’água, nem lembramos que ali é Nordeste. Eitcha, vida boa! E que vai melhorando conforme o sol vai baixando no horizonte.


Dizem que hoje mudou, está mais seguro. Dizem. Na dúvida, é sempre melhor cruzar de Petrolina pra Recife ou Cabrobó depois que o sol nasce. E chegar ao destino, qualquer que seja, antes do sol se por. Dizem que isso faz um bem danado pra saúde. E também pros bolsos dos viventes viajantes. Aquele território tem donos e não são propriamente amáveis fazendeiros, simplórios campônios ou bem sucedidos empresários de sotaque esquisito.

Saímos cedo, como manda o figurino, em demanda duma fazenda de uva a uns cento e poucos quilômetros de Petrolina. Deixando a cidade, pequena metrópole sertaneja pra trás, tudo que se vê é a caatinga. Meio acinzentada. Muito xique-xique nas beiradas. No meio da caatinga, os pés de mandacaru se destacam. Lembram o menorah judaico (já aportuguesaram pra menorá, com acento e tudo; prefiro o original). Ou, talvez, o menorah é que lembre um mandacaru das vizinhanças do antigo Crescente Fértil. Na tradição judaica, o menorah tem sete braços, é de ouro e cheio de azeite. Por aqui, os braços são três, via de regra (desculpe, Paulo Francis, nunca esqueci que via de regra é outra coisa, mas, por que não usar via de regra uma vez ou outra? que outra chance de rebeldia me resta nesses chatos dias de hoje?), e são cheios de espinhos. Nada sei, nada sabemos de ouro e azeite. Aqui e ali, umas cabras botam as caras pra fora da proteção retorcida e espinhenta e olham a passagem do carro.

A fazenda é um oásis, difícil descrever. As águas do São Francisco respondem por isso. Bombeadas da margem do rio, vão para um depósito e dali, por meio de grandes aspersores, molham os parreirais. Manchas verdes em meio ao cinza-caatinga. Esse método é muito gastador de água e de energia. Mas, que diabos, no momento tudo que vejo é a beleza das parreiras e dos cachos.

A colheita, em alguns talhões, segue num ritmo intenso. Dezenas de pessoas, a maioria mulheres, caminham na sombra das parreiras com uma tesoura na mão e uma sacola a tiracolo. Os grandes cachos da Red Globe rapidamente ocupam todo o espaço da sacola, forçando a descarga numa caixa. Em poucos minutos passa um trator pequeno, puxando uma carreta. Sobre ela, as caixas de uvas. No dia seguinte estarão todas embaladas e já dentro de um Boeing a caminho da Europa, ou, talvez, do Japão. E também para os Estados Unidos e Canadá na entressafra californiana.

Escolho um cacho campeão. Deve pesar mais de dois quilos, é perfeito, as uvas estão no ponto certo. Contenho-me. Gravamos de ângulos diversos. Chamo uma das colhedoras, ela vem, corta o pedúnculo e o coloca na sacola. Assim que a câmera é desligada vou até ela e tiro o cacho perfeito de sua sacola. Esse é meu. Enquanto meu pessoal segue gravando outras cenas, encosto num tronco velho, rugoso, e fico ali, comendo uma parte dos mais de dois quilos de uvas e olhando o movimento. Lembro que ontem fomos gravar numa pequena propriedade bem ao pé da Barragem de Sobradinho. O proprietário é um cara novo, ainda. Veio de Brasília. Tem orgulho da escola que ele mesmo construiu na fazendinha. Na maior parte do Brasil e do próprio Nordeste, é uma pequena fazenda, pouco mais que um sítio: cerca de 50 hectares, coisa aí de 20 alqueires. Quase nada mesmo. Mas esse pedaço de terra sustenta o ano inteiro mais de 40 funcionários. Muitos deles já exercem funções mais especializadas, melhor remuneradas. Lentamente, o progresso começa a chegar na caatinga. A renda melhor demora, mas vem atrás.

A mesma coisa acontece nessa fazenda onde estou. Só que essa é bem maior, muito maior. Em todas as casas, antenas parabólicas. Não há exceção. Sem parabólica, a família sertaneja moderna já não sobrevive.

Só depois de acabar com parte do cacho, a parte mais bonita, é que penso que justamente esse cacho iria pra Nova York e eu o tirei da boca da Sarah Jessica Parker, a protagonista de Sex and the City. Como? O que tem a ver uma coisa com a outra? Nada, absolutamente nada. A doçura da uva me fez viajar. A produtora da série que procure outro cacho perfeito. Até porque a série já saiu do ar, assim como Friends.


Depois daquele cacho, continuamos gravando. E, ora um, ora outro, o pessoal da fazenda a cada dez, quinze minutos, vinha perguntar se a gente sabia que horas eram. Sim, sabíamos da hora, obrigado. Pelas três e meia ficaram mais insistentes e preocupados. Aí então já não era mais pergunta, era sugestão.

- Tá na hora de vocês pegarem estrada, hein.

Certo, certo, só mais um pouco. Às quatro e meia cheguei à conclusão que, se não fôssemos embora, seríamos hospedados na fazenda. Pouco antes das cinco pegamos estrada, pra grande desasossego do pessoal da fazenda, todo mundo preocupado com nossa segurança. E era sobre isso que ia escrever, até que um perfeito cacho de uva desviou meu pensamento, minhas lembranças e minha escrita.

Estávamos no outrora famoso Polígono da Maconha, por onde não se trafega, ou não se trafegava, durante a noite, a menos que em comboios protegidos pela polícia. Mesmo assim, entretanto, houve casos de assaltos e seqüestros até no meio do comboio. Ali, a bandidagem domina, ou dominava. A caatinga é vasta, os caminhos secretos são muitos, a polícia é pouca, mal remunerada, mal treinada e nem um pouco a fim de ficar protegendo aquele povo atrevido que cruza a estrada fora de hora. Naquelas rodovias federais, mesmo sem cancela e sem porteira, todo mundo sabe que de noite a estrada fecha.

A boca da noite se aproximava. Eu apertava o acelerador do carrinho popular tentando chegar mais depressa em Petrolina. Até que vi o mandacaru.

Já tinha reparado nele logo cedinho, quando passamos. Enorme, imponente, rodeado por um mar de xique-xique e pequenas árvores, quase arbustos, da caatinga. E agora, além de tudo isto, ele ainda estava no contraluz do por-do-sol. Naturalmente, uma imagem imperdível. Sob protestos generalizados, parei o carro.

- Vamos gravar rapidinho, gente, vamos lá. ... Cury, olha que beleza de luz! Aproveita ao máximo.

- Ô, Emerson, tá tarde, nem precisa gravar essa imagem, pô!

- Calma, cara, relaxa. Fabrizio, corre aí com o tripé, monta ali, ó...

Enquanto o pessoal, olhando pros lados, pegava o equipamento, achei uma brecha na verdadeira muralha de xique-xique e entrei na caatinga. Foi a conta de entrar e tomar um susto. E sentir um frio ocupando os espaços da barriga. O chão, de um lado e de outro, estava cheio de latinhas de cerveja. Só de cerveja, e muitas latas, o bastante pra fazer a alegria de um catador por uma semana ou mais. O Cury e o Fabrizio também entraram e viram o mesmo quadro. Nunca vi os dois gravarem alguma coisa com tanta rapidez. E, conferi depois, gravaram certinho, com qualidade. Quando comecei a falar de fazer uma panorâmica fui cortado:

- Já tá feita.

- Ah, legal. Então, faz um zoom in e um...

- Já fiz, também, chefia. Tá tudo feito: slide, zoom in, zoom out, panorâmica, till... Não falta nada, só falta a gente ir embora logo.

- Tá bom, tá bom, vamos embora.

Apesar da pose, eu também estava assustado. Não precisávamos ser experts em nada, bastava olhar: o longo trecho reto de estrada, a caatinga a perder de vista em todas as direções, o alto e imponente mandacaru se destacando na paisagem,


o chão coalhadinho de latas de cerveja... Tínhamos parado bem no point, no meeting point da bandidagem. Realmente, era mais que hora de ir embora. E ainda dizem que hoje tá tudo seguro. Sei. Aquele sertão tem donos e não éramos nós, não mesmo.

Em algum momento do dia seguinte, as uvas com destino a Nova York e à boca da Sarah Jssica Parker, passariam por ali. Nova York não sabe nada do que acontece no caminho de seus mimos.
Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 13/01/2006
Código do texto: T98386
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
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