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FALANDO SOBRE JOÃO...

Estava danada da vida, por conta de um problema pessoal que atormentava minha cabeça e feria meu coração como se fossem punhaladas... É um problema muito sério!
Além disso, semana que vem, dia 23/01/06, tenho uma cirurgia que me deixará mais de um mês de molho, sem contar que terei que ficar internada dois dias, minha casa poderá não funcionar muito bem em minha ausência, vou deixar o filho, a cachorrinha, as plantas e minha cama. Ufa! Fico preocupada. Tudo isso que se apresentava em minha vida estava merecendo algo que me desanuviasse. Pois é, precisava encontrar uma maneira de melhorar minha angústia e a solidão de minh'alma. Adorei a idéia que minha irmã me deu. Ela me convidou para passear e eu topei mais que rápido, certa que isso serviria como combustível para recarregar minha energia e me ajudar a sair daquele marasmo medonho e enfadonho, diga-se de passagem.
Saímos então para a noite carioca. Uma beleza! A noite carioca é digna de ser comentada, isto é, sem violência, é claro.
Chegamos finalmente ao local: LAPA. A linda e majestosa LAPA com seus arcos que traduzem a história da "Cidade Maravilhosa". É como se passasse um filme em minha cabeça. Me remetí ao passado, à época do império... Ainda posso ver escravos descalços pelas ruas, as mucamas embalando os bebês brancos... Vejo os escravos carregando as "Senhouras" nas liteiras.
Seguindo mais um pouco a frente vejo Madame Satã, que também se chamava João. Um malandro carioca, capoeirista, transformista, cozinheiro, presidiário, pai adotivo ... João Francisco dos Santos gostava de dar "rabos de arraia" na policia, mas sei que ele ajudava pessoas também. Conheci um velhinho, Sr. Afonso Matera, que Deus o tenha, que me contava histórias de sua infância pobre, em que, sendo órfão,necessitou trabalhar muito cedo. Contou que todos os dias Madame Satã passava pelo seu barraco para ver como ele estava, se precisava de alguma coisa e sempre o ajudava.
Bem, mas deixemos o malandro pra lá e vamos continuar nossa viagem. Agora estou nos Anos Dourados, Rock and Roll, lambretas e brilhantina...
Ah! que bonito, é a bossa nova. Estou ouvindo a canção Garota de Ipanema e, mais a frente, vi os baianos trazendo a Tropicália... Chiiii, passei pela ditadura, perseguições, torturas, sumiços... Passa, passa rápido que essa é uma época triste e estão levando embora nossos artistas sem lenço,sem documento e, pior, nossa liberdade.
Cheguei agora mesmo à Candelária num dos dias mais importantes do século XX para os brasileiros: Comício pelas "Diretas Já" que aconteceu em 1984, reunindo cerca de 1 milhão de pessoas. Eu estava lá nesse fato histórico. Emocionante!
Mas vocês devem estar pensando no título desta crÔnica e no assunto que estou desenvolvendo. O que tem a ver isso com aquilo? Bem, vou responder...
Ontem, chegando à Lapa, fomos para Rua do Lavaradio, numa casa de Shows, musica ao vivo, excelente, Rio Scenarium. Como por lá eles oferecem várias opções, seguimos para sala onde iria se apresentar o João Suplicy. A princípio, por não conhece-lo muito bem, permaneci apenas porque era um local confortável, tinha ar condicionado para matar o calor da noite, enfim, aproveitaria a agradável companhia de minha irmã, de minha prima e dos seus digníssimos esposos. É...eu estava de vela, mas tudo bem.
Chegou a hora do show e aos poucos fui me animando, dançando, rindo e sentindo cada palavra do artista contida em suas canções. Eram versos profundos, simples, limpos, mas carregados de amor. Vi no artista um homem com cara de menino... Um jeito de madureza que se revela no seu meigo e terno olhar. Senti um ar responsável, mas de alguém que ama a vida e respeita sua prole, sua família, o ser humano. Uma pessoa querida que fez uma canção para homenagear a avó, o seu bebê menina... Ele tem os olhos suaves, verdadeiros e um sorriso tímido que encanta. Não o conheço pessoalmente, intimamente, nada. Percebi nele um misto de bondade, de inteligência e um alguém com alma bonita.
Numa só noite pude entender como a vida é boa e como Deus é bom. Ele tem que existir, mesmo que me pegue, muitas vezes, questionando sobre sua existência. Ai mergulho num grande vazio e começa a chuva dos "por quês" (por que isso, por que aquilo?) e sem qualquer resposta que me satisfaça a incredulidade materialista, recolho-me a grande insignificância de meu ser e agradeço por estar viva, por ter o privilégio de ser mãe, de ser mulher, de gostar de escrever, de poder usufruir da companhia de tantas pessoas boas e, ainda por cima, contar com seres de luz que atravessam nossa existência e que nos dão o prazer de continuar à trilha.
Pode até parecer exagêro, mas não é. O João Suplicy é um artista muito encantador. Gostei demais de suas canções, de sua apresentação, do seu carisma e dos dois CD's que pude comprar e trazer autografado pra casa.
Como o Brasil é rico em arte... Como o Rio de Janeiro abriga tanta beleza...
O João não é carioca, mas isso é efêmero. Eu também não sou carioca, sou fluminense, de Niterói. O mundo seria bem mais bonito se não existissem fronteiras e bairrismos. O importante agora é saber que o JOÃO tem um jeito especial de bossa nova e é BRASILEIRO. Ele é nosso irmão de pátria e, com sua arte, me proporcionou muita alegria num dia em que eu necessitava de um ombro amigo. Agradeci a Deus por essa noite e pelas canções do João que me ajudaram a sonhar e a desejar melhores dias.
Obrigada, João!

Versos de uma de suas canções: ENQUANTO VOCÊ NÃO VEM (João Suplicy e João Pelegrino).

O fogo assovia
Melodias na noite fria
As brasas são intensas
Ilumina a noite, esquenta.

Seus gestos são suaves
Melodias na noite fria
Palavras são intensas
Iluminam a noite, esquenta

E as folhas que dançam
No canto macio do vento
São as cores que dançam
No canto do meu pensamento.

E agora,
Deite aqui também.
E vamos sonhar o futuro
Enquanto o dia não vem.


- MEG -
(Amália Klopper)



MEG KLOPPER
Enviado por MEG KLOPPER em 15/01/2006
Reeditado em 18/01/2006
Código do texto: T99305

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MEG KLOPPER
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
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