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FENOMENAL REI

No dia do lançamento do romance
“As últimas lágrimas d’ El-Rei “, de
Luis Coelho Albernaz
Frassino Machado


“Acabou por falecer sem pai nem mãe, sem filho nem filha, sem irmão nem irmã e, ainda, com muito poucos, fora de Portugal, no Reino do Algarve, em Alvor, muito pequeno lugar, ao cair da tarde do dia 25 de Outubro de 1495.”
Muitos têm feito prosa e defendido teses, as mais díspares, acerca das causas da morte do rei D. João II. A hipótese de envenenamento tem sido sustentada, ao longo dos séculos, a partir da interpretação dos eventos que nos são narrados pelas diversas Crónicas escritas, entre elas as de Rui de Pina, de Garcia de Resende e, principalmente, as de Damião de Góis.
Vou aqui destacar este tópico, da morte do rei, que é - quer queiramos quer não - o sentimento mais aliciante e, ao mesmo tempo, frustrante e apaixonante deixado por este célebre monarca que, consensualmente, tem sido considerado o mais brilhante estadista da nossa história. Ao mesmo tempo para tentar deslindar um pouco a simbologia justificativa do título do presente romance, caracterizado com toda a propriedade de histórico : a simbologia das lágrimas. Deixarei no ar a suspeição e a expectativa de que lágrimas estamos falando quando nos vem à mão um romance deste quilate. Sabemos bem que há lágrimas e lágrimas. Há-as de alegria, de raiva, de emoção, de saudade, de amor, de ódio. E, sendo elas as últimas ... pois ficará a resposta para o momento próprio em que estivermos lendo este romance !
Os defensores da rainha Dona Leonor, aqui considerados como autores apologéticos, rebatem a ideia de envenenamento na pessoa de D. João II. Naturalmente, como é óbvio. Uma espécie de cabala da vingança será considerada absurda por eles. Embora se pudesse considerar que a rainha estaria na disposição de se vingar da morte de vários dos seus familiares. Assim , segundo essa tese, o envenenamento poderia ter ocorrido por fases, segundo a aplicação de arsénico em pequenas doses, que foram sendo ministradas ao longo de vários anos. Claro que todas as especulações, nesta via, têm-se mostrado quase sempre inconclusivas. Todavia há que ter em conta que naquela Época estes processos, ou outros semelhantes, chegaram a estar muito em voga. Daí a sua denúncia. Por outro lado, é inegável que a família mais directa de D. João II ( pai, mãe e irmã ) morreram relativamente novos e de doenças não totalmente identificadas. Prova disso foi, no caso da mãe e irmã, a mesma acusação de envenenamento chegou a formular-se. Ou será que poderemos falar de outros tipos de envenenamento virtual, isto é, emotivamente e psicologicamente conseguido : uma vida cada vez mais envenenada pela doença que se agudizava, pela oposição que crescia, pela Rainha que nunca desistiu, segundo testemunhas credíveis, dos seus intentos e pelos seus inimigos que, cada dia que passava, parece que cresciam ? ...
Já Garcia de Resende, em certo local, diz : "o rei morreu quase sozinho, acompanhado dos íntimos de verdade", e estes são sempre muito poucos. Até à última hora, foi atraiçoado por um seu secretário, que não Resende, que o abandonou para ir dizer ao Duque de Beja que ele era o seu sucessor! E o Rei, no seu leito de morte teve consciência do seu isolamento : a Rainha teria ficado em Alcácer e o Duque, chamado uns dias antes - provavelmente para receber aquela notícia - nunca ocorreu ao chamamento. Daí as "lágrimas de raiva" de que fala Góis. E estas teriam sido das últimas a correr-lhe pela face. Mas, não desvendemos o segredo porque, de facto, não foram estas as últimas, segundo narra e bem o nosso romance.
Não é pois linear que D. João II tivesse ingerido arsénico, ou outro qualquer veneno. Não chega mesmo, para provar isso, o facto do seu corpo - como rezam as Crónicas - ter sido encontrado incorrupto. Todavia não se pretende defender a total inocência de Dona Leonor, nem pelo facto de ter sido ela a fundadora providencial das "Misericórdias" que a iliba de liderar o processo que progressivamente terá ajudado não tanto à destruição física, mas sobretudo psíquica do seu marido. Claro que o facto de ela acabar os seus dias de hábito vestida pode ter dois significados : ou foi-o por ascese e santidade ou, então, por expiação e arrependimento de pecados cometidos...
( por isso lá diz a sabedoria popular que "o hábito não faz o monge" ) .De qualquer das maneiras continuaremos a sustentar que toda e qualquer hipótese neste campo será sempre inconclusiva. Até porque não acreditamos como plausível a ingenuidade do Príncipe Perfeito em chegar ao ponto de se deixar envenenar aos poucos, materialmente falando.
Nesta sequência os seus cronistas também registaram algo que nos pode fazer pensar. Diz Rui de Pina que "Jazeu El-Rey depois de morto, à vista dos presentes, até que de todo arrefeceu... enquanto aparelhavam e metiam na tumba os do Conselho...". E escreveu Resende "e, enquanto o concertavam e amortalhavam muito limpamente, para o meterem na tumba, os principais que aí estavam, tiraram de um cofre o seu testamento..." Os dois escreveram que o Rei "morreu ao por-do-sol e pela meia noite foi levado para Silves". O facto de terem demorado tantas horas a "preparar o corpo", pode querer dizer que o embalsamaram, já que o Rei tinha revelado em testamento o ser sepultado no Mosteiro da Batalha, pelo que convinha ser preparado convenientemente. E Damião de Góis também afirma, em dada altura, que "seus criados lavaram o corpo com águas e óleos preciosos". Ora sabemos hoje que é uma das fases de embalsamento. E diz ainda Resende, quando da transladação, em 1499, "acharam as tábuas do ataúde, em que o corpo estava, quase queimadas da cal, e também uma alcatifa e lençol e o corpo do glorioso Rei são e inteiro, com um aroma singular, ainda com suas barbas e cabelos na cabeça e todas as outras partes e membros como haviam sido deixadas". Corpo incorrupto não terá sido, pois, sinónimo de conservação devido aos efeitos do arsénico, como o suave odor não se explicará necessariamente pela santidade...
Esta suspeição popular - agora indiciada na minha dissertação - chegou a tomar foros de fenomenal : o Rei teria morrido como santo. Ora aqui está o sonho do populismo tão ao sabor de uma análise ingénua mas que, todavia, sustenta a mentalidade duma dada época.
Durante anos pairou na memória e, quiçá, no subconsciente do povo a prova evidente desta milagrosa consagração : D. João II, foi o Rei Total . Um grande rei que governou invariavelmente para todos. Daí não estranhemos o desabafo de Isabel, a Católica, quando soube da sua morte do nosso rei : ha morido El Hombre ! E todos conhecemos as altas rivalidades entre estes dois estadistas. Voltando à questão das mentalidades, D. João II foi um rei de todos os predicados : bom, porque soube amar o seu povo ; assumindo na divisa do pelicano o inteiro significado da paternidade política ; o rei sábio, pois conduziu os destinos de um Reino, que encontrara em decadência, e o entregou gratuitamente pleno de perspectivas e de esperanças ; o rei justo, pois soube fazer as reformas correctas, no tempo oportuno; porque defendeu os oprimidos dos opressores ; porque centralizou ( desiderato supremo da sua época ! ) toda a acção considerada justa e igualitária, pois a bom fim conduziu o povo que, "por instinto" no dizer de Maquiavel lhe retribuiu com a auréola de santidade. Deixei aqui sintetizada não a imagem - do mítico herói lendário da Idade Medieval, que este romance sabiamente evitou - mas, sim, aquela imagem do monarca que com sabedoria, inteligência e sentido estratégico criativo, abriu rumos para a lusa modernidade.
Concluirei finalmente – com a erudita catedrática Manuela Mendonça – que a saudade do corpo material, suportada pelos valores do corpo político e social, dá lugar à ideia da perfeição. E quem teria pela primeira vez apelidado este Rei de PRÍNCIPE PERFEITO ? Não será preciso ir muito longe. Fiquemo-nos nas directas palavras do cronista quando afirma que " este Rei acabou tão santamente, que o tomaram por santo, e pelo muito grande bem que a seus povos queria ficou a todos em geral um tão grandíssimo amor à sua alma, e à sua memória, sua vida e seus feitos, que para sempre será desejado, louvado, muito bem reconhecido pelo que realizou, e de muito honrada fama" . Tenho dito !


( Segue-se o texto Canção EL REI DOM JOÃO II )


EL-REI DOM JOÃO II

Ninguém, ninguém,
viveu assim no mundo
tão Perfeito :
El-Rei Dom João II,
el-Rei Dom João II,
ninguém, ninguém, bem sei
a não ser o nosso Rei !

Logo pela manhã
com o sol a levantar,
já se ouve vir ao longe
o séquito real :
El-Rei de Portugal,
el-Rei de Portugal !

E pelo dia fora
tudo há-de acontecer,
p’la Lei e pela grei
a todos equivale :
El-Rei de Portugal,
el-Rei de Portugal !

No amanhã que vem
riqueza há-de chegar,
qu’os filhos da Nação
já não têm rival :
El-Rei de Portugal,
el-Rei de Portugal !


Frassino Machado
In CANCIONEIRO
FRASSINO MACHADO
Enviado por FRASSINO MACHADO em 01/12/2006
Código do texto: T306875
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Sobre o autor
FRASSINO MACHADO
Odivelas - Lisboa - Portugal
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