PERSCRUTANDO AS JANELAS DA ALMA

“Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.” – Mateus, 7:6.

O ser humano é uma máquina fantástica e engenhosa. Dotado de ânimo, o que o coloca em patamar superior aos seus para-similares, os animais e as plantas, também caracterizados pelo ciclo natural da vida que evolui do nascimento até a morte, os seres humanos têm amplas e infinitamente maiores possibilidades de evoluir na busca do real significado de sua existência.

No entanto, e governado pelo órgão centralizador de toda sua capacidade cognitiva que é o cérebro, catalisador das mensagens enviadas pelos seus sentidos físicos convencionais, o indivíduo dependerá também de uma infinita gama de combinações e variantes advindas do meio e das condições em que vive para que seu potencial evolutivo se evidencie.

Exceto em razão de anomalias congênitas, perdas acidentais ou em conseqüência da deterioração natural pelo envelhecimento, o ser humano foi concebido com cinco sentidos físicos que o colocam em patamar de igualdade com seus semelhantes, e que aqui são citados pela ordem de importância: visão, audição, olfato, paladar e tato. Como mensageiros incontestes do cérebro, seu comandante, são também conhecidos como as janelas da alma. É através dessas janelas que o cérebro estabelece um relacionamento perfeito com o mundo exterior e dele obtém tudo o que precisa para sobreviver e evoluir.

É também através desses cinco sentidos que é possível ao ser humano estabelecer um conhecimento mais espiritualizado do que o dos simples atos orgânicos de enxergar, ouvir, sentir cheiros, sabores e texturas. Bem utilizando as premissas básicas da convencionalidade desses sentidos, o ser humano é capaz de arquitetar arcabouços mais intrincados e complexos, que o levam a “sentir” de forma cada vez mais ampla o significado das coisas e fatos que interagem ao seu redor.

Dessa interação advém o aperfeiçoamento dos sentidos anímicos, que elevam o ser humano ao patamar superior que ocupa em relação aos demais seres vivos. Ou, pelo menos, numa posição um mais privilegiada do que o daquele seu semelhante em forma criativa que se absteve, por exemplo, de tentar entender o que significa enxergar além de sua visão fisiológica. Ou de saber a razão de tal aroma ser mais agradável que outros, e que mensagem subliminar isso pode transmitir a seu cérebro. Ou de saber distinguir o significado do áspero e do macio, do amargo e do doce e assim por diante.

A diferenciação entre o aperfeiçoamento do ser humano vai algo além dessa mera capacidade de bem utilizar seus sentidos. Há também fatores alheios à vontade ou à capacidade atribuída a todos os seres humanos indistintamente, quando de sua concepção. Como um ser altamente sociável e propenso a viver em comunidade, o ser humano vai se defrontar com imensa variedade de situações ao longo da trajetória compreendida entre seu nascimento e sua morte. Desde o momento em que nasce, as situações ambientais, econômicas, e sociais têm fundamental importância nessa trajetória, pois determinarão o quantum de utilização o indivíduo fará de seus sentidos fisiológicos básicos, e de que forma buscará aperfeiçoá-los para que possam proporcionar-lhe também um evoluir anímico.

De outra forma, como o homem conseguiria definir e estabelecer suas ações humanitárias e solidárias, seu discernimento moral, seu senso estético, sua intelectualidade e até mesmo seu interesse religioso?

Em uma análise bem simplória e pouco aguçada, pode-se deduzir que o homem desprovido de condições adequadas e dignas de subsistência jamais terá condições de trilhar um caminho evolutivo além do que lhe propiciarem seus cinco sentidos primordiais. Com eles procurará apenas sobreviver e deles se satisfará na medida em que não morra de fome ou de doenças advindas de seu ambiente social deteriorado. Da mesma forma agirá o ser humano a quem tenha sido tolhida a liberdade de manifestar suas vontades e pensamentos. Terá medo de, ao tentar evoluir para plano superior às capacidades propiciadas pelos seus sentidos convencionais, ver ameaçada sua subsistência ou até mesmo a sua vida. E por isso, poderá optar por permanecer inerte e à mercê das circunstâncias.

Desse inter-relacionamento do homem com seus semelhantes e com seu habitat é que se fazem notar a evolução que este dará aos sentidos básicos de que é dotado. Caso tenha condições econômicas para tanto, poderá simplesmente satisfazer-se com seus sentidos primordiais. Poderá passar pela vida viajando e admirando belas paisagens, ouvindo as melhores músicas, sentindo os mais agradáveis aromas das mais sofisticadas comidas que seu paladar quiser, ou os melhores perfumes que seu ímpeto exigir ou ter ao alcance de suas mãos as texturas mais agradáveis. Ou então, pela disponibilidade de tempo que sua situação econômica lhe permitirá, poderá dedicar-se ao aprofundamento de seus conhecimentos, por opção ou por necessidade de suprir o tempo de ócio. Em patamar sócio-econômico completamente oposto, o indivíduo poderá apenas tentar satisfazer as necessidades básicas de sustento, sem qualquer outra preocupação, exceto o da sobrevivência.

Em nenhum dos dois extremos, entretanto, haverá a percepção das possibilidades evolutivas dos sentidos primordiais. No primeiro exemplo, o embotamento poderá advir da total falta de perspectivas, já que tudo está ao alcance e nada mais há que almejar ou possuir. Na outra ponta, o crescimento do espírito ou a evolução dos sentidos anímicos estarão bloqueados simplesmente pela total impossibilidade de locomoção social, pela ignorância abissal a que estão submetidos pelos interesses dos mais poderosos ou simplesmente pela prostração que é sintoma severo dessas condições sub-humanas a que está submetida essa parcela da humanidade.

Sem dúvidas, o conhecimento deveria ser a maior conquista do ser humano na busca de sua essência. É através do aprimoramento dos sentidos e do acúmulo de conhecimentos que se vai “afinando” o cérebro, seu catalisador, para a tão pretensa perfeição que o homem busca atingir. Mas é por isso mesmo que o conhecimento é domínio de poucos e de privilegiados. Deter o conhecimento é deter o poder, muito embora o conhecimento dos poderosos não seja necessariamente os adquiridos por aqueles que almejam a busca da perfeição e bem estar. Os interesses dos poderosos são sempre infinitamente distantes e antagônicos aos dos subjugados pelo poder.

Cabe-me deduzir nesta breve reflexão que, se temos intenção de, ao cavar masmorras ao vício, soterrar em lugar profundo a negação, o pessimismo, o desinteresse, o egoísmo e todos os demais aspectos negativos e contrários à nossa busca de evolução dos sentidos primários, precisamos de uma força descomunal. Uma força que nos impulsione à busca inarredável pela sobrevivência, à tentativa incansável de conquistar a igualdade de forma incondicional, a liberdade de maneira irrestrita e a fraternidade com o feitio mais desinteressado que possa haver. Não há como conceber a evolução anímica dos sentidos primordiais sem essa tríade fundamental e coesa.

Se assim não o fizermos, estaremos correndo o risco de continuar atirando pérolas aos porcos diuturnamente, sem qualquer sentido ou perspectiva de adquirir as reais condições de poder erguer os almejados templos à Virtude.

(Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima fornada". Rumo Editorial - SP - 2008)