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NAO PODEMOS PERDER AMIGOS

Numa pequena folha de papel em branco mergulhei os olhos e liberei a imaginacao.
Recordei, um a um, os amigos que perdi ao longo de toda minha vida. Nao importando como os perdera: se por morte deles, se por afastamento geografico, se lhes magoei ou fui magoada a ponto de acharmos preferivel nos esquecer.
Para cada nome que lembrava eu marcava um ponto azul naquela folha.
Notei que eram tantos que ao final daquela viagem pelos escombros das amizades, eu tinha formado um grande circulo de pontinhos.
Analisados um a um, ponto a ponto, eu descobri o leque de oportunidades que perdi. Nao dei chance a alguns, nao entendi a outros, nao perdoei a metade e nem fui perdoada pela outra metade.
Achei, de repente: ja que nao me unira a nenhum daqueles pontos enquanto tive reais oportunidades, deixando-os assim tao isolados, liguei-os uns aos outros no papel e avivei aquele circulo de amigos que deixei ou me deixaram. No papel, tal qual na vida, um circulo azul e um grande espaco em branco.
Foi ai que me veio a ideia de tentar que nos juntassemos, mesmo ilusoriamente.  No meio daquela roda coloquei um ponto forte em tom vermelho. Dei a esse ponto o nome "tolerancia".
Comecei entao a viajar no "se". "Se" eu tivesse; "se" eu pudesse"; "se" eu fizesse; "se" eu quisesse e quanto mais verbos evocava mais humilhada fui ficando; descobrindo tantas dadivas que, ao longo da vida,  me foram concedidas e, fui deixando largadas pelo caminho; priorizando coisas e sentimentos que somados nao valem um unico daqueles amigos que deixei pra tras.
Tivesse eu sido mais humilde, tivesse avancado um passo, recuado outro; talvez uma palavra simples pudesse salvar a agonizante amizade e esse circulo nao seria tao imenso e hoje, tao dificil aparar as arestas.
Assim, como comigo se passa, com toda Humanidade esta se passando. Eu sou apenas um pedaco que se expoe.
Para diminuir a angustia fui puxando cada pontinho do circulo para o centro e, para evitar o acumulo de tinta, no mesmo ponto; retrato das nossas rusgas, nossas diferencas, eu decidi entao, cobrir as listras com a mesma cor vermelha.
Ao final, eu tinha uma folha com uma grande bola vermelha: meus amigos que deixei pra tras abracados uns aos outros, circulados por uma fina linha azul lembrando o ceu.
Finalmente, eu os reunira naquele papel e os prendi para guarda-los em minha lembranca. Aquela fotografia colorida foi o maximo que consegui extrair da infinita amargura que deixou o "levantamento simbolico" dos amigos que nao conservei. Eh dificil confessa-lo mas, se nao sao mais meus amigos eh porque nao fiz por onde merece-los.
Amigos nao sao pessoas presentes em nossas festas sociais mas, pessoas que nos acompanham pela confianca que sentem na integridade da nossa presenca.
Ferir, abandonar, menosprezar, rejeitar um amigo eh marcar encontro, num futuro bem proximo, com a solidao e o silencio que alucina.
Nao deixemos escapar nenhuma chance de cativar nossos amigos; de tolera-los, de compreende-los como sao, de respeita-los.
Guardar no coracao ressentimento contra qualquer pessoa eh, no minimo, perder a chance de fazer mais um amigo, perder a alegria de conviver e usufruir de um pensamento diferente, habitar um casulo.
Nao eh possivel ser feliz sozinho: um amor pode entristecer, uma paixao pode esfriar, a ira pode ser contida mas, uma amizade nao pode enfraquecer. Eh nela que todos os sentimentos se escoram e sao fortalecidos.

Rosa Maria Dias (Jotapati)

"Desculpem a falta de acentos e cedilha nos meus textos mas, meu teclado nao eh configurado para portugues"
jotapati
Enviado por jotapati em 08/02/2006
Código do texto: T109253
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Sobre a autora
jotapati
Estados Unidos
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