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FELICIDADE ANDA DESCALÇA

A brisa fresca batendo no rosto depois do dia escaldante,
como os de agora, nesse agosto veranico.
Fecho a porta deixando o calor lá fora, já não aguentava o ar temperado com poluição da megalópole.
Ecoam as vozes desta cidade: buzinas, camelôs, a música de CDs piratas, trabalhadores em greve com seus megafones, o caminhão vendendo pamonhas e morangos (morangos fresquinhos, senhora, venha ver, venha provar), o burburinho dos freqüentadores dos bares, com suas mesas na calçada, atrapalhando a passagem. Lá longe, sirenas da polícia, bombeiros e ambulâncias (abram passagem, a vida tem pressa). Aqui perto, crianças brincam no espaço livre da casa noturna, parece que a temporada dos mendigos chegou, eles se multiplicam deitados nas calçadas, num sono indiferente ao mundo. Ouço a língua realizada de maneira culta, contrastando com o falar simplório de porteiros, encanadores, pedreiros (nós vai consertá hoje mesmo). A época da safra dos políticos chegou,  é tempo de plantio de promessas, isto vai virar um paraíso. Guris no semáforo. Quando era recém-mãe, tinha vontade de levá-los todos para casa; também chorava sentada atrás da mesa de trabalho, olhando a tela do computador, com saudade  e vontade de estar perto da minha cria.
De vez em quando a véia bruxa sorumbática faz sua visita tirando do caldeirão muita culpa. O pai não recebeu visitas, o outro não foi visitar, Será que ano vindouro será tempo ainda de dizer eu te amo?  Ouço o sino do  Outeiro do Divino, o tempo passa no dim-dom do bronze, na vida, no meu corpo. Olho no espelho e junto as partes que poderiam passar na faca se tivesse coragem, dinheiro e certeza de que não ia parar de respirar outra vez. Celulite é como praga na roça. O tempo poderia voltar e ser de novo aquela do retrato. Também esta preguiça, sempre que faço ginástica, aparece alguma coisa, o joelho dói, a unha encrava. Tem tanta religião hoje em dia. Eu gosto de Deus. De água, da noite e do mar. E de conversar. Dos meus amigos. Como juntar os cacos de uma amizade? Da minha família. Uma vez, quando era adolescente,  saí correndo em disparada, de repente, ganhando o imenso espaço de campo que se abria. Por que? E eu sabia?  O filho já é homem, cheio de sonhos e esperanças, mas com o olhar crítico sobre o mundo que vê. Melhor assim? Meu tesouro, o bem incomparável a todos os bens que sonhei. Quisera ter amamentado mais tempo. Mas o peito inchou, inflamou. Marinheira de primeira e única viagem. Se pai se for, ficarei órfã. Mãe já foi faz tempo.
Minha amiga voltou para São Paulo. Já viu o suficiente do sul. Agora está mais perto. Qualquer hora vou lá, caminhando.
Preciso abrir espaço nesta casa pequena. De madrugada saí para olhar o céu. A lua estava lá, com sua cara de perfil. Vinham duas mulheres uniformizadas na rua deserta. Queria ver se tinha bordado no uniforme. Distraída com a lua, elas passaram.
Quisera escrever como alguns daqui, fazer uma obra de arte que me aquietasse. Acho que não levo jeito para essa coisa de criar.
Tiro a roupa. Embaixo do chuveiro, deixo ir as divagações, cesso a voz da bruxa sorumbática. Como é gostoso a água cair no corpo, silencio e sondo a quietude do ambiente, só o barulho da água caindo. Meu coração pacifica. Envolvo-me com a toalha. Enxuta, percebo a sensação de leveza, liberdade e paz.
Saio descalça e nua pela casa, nenhum som está ligado, mas há música dentro de mim.
Neste momento, lúcido sentimento, confortável, bom, abrangente, de paz. Acho que seu nome é felicidade.



17/08/2006
DIANA GONÇALVES
Enviado por DIANA GONÇALVES em 17/08/2006
Reeditado em 17/10/2012
Código do texto: T218426
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
DIANA GONÇALVES
São Paulo - São Paulo - Brasil
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DIANA GONÇALVES

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