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Diário de Quarentena


13/09/07 - Um dia pleno.
O sono continua o mesmo. Banho. Vontade de ir à igreja. Missa. Quinta-feira é na capelinha da Nossa Senhora do Sim. Comunhão. Uma oferta para a santinha. Sinto-me grata por tudo. Bom saber que não estamos sós, mesmo que aparentemente estejamos sozinhos.
O dia é calmo, sem sobressaltos, fantasmas, pressentimentos. A sensação é boa. Andando na rua, a brisa no rosto dá agradável sentir de bem estar. Estou bem comigo. Por que não transferi o dinheiro para meu pai, preferindo contribuir para a reforma do jazigo? A idéia acompanha-me. Mas o dia está destinado a ser perfeito. Onze horas. Meu pai vem me visitar. Dou-lhe pessoalmente o dinheiro. Já não ouve direito. É teimoso no cuidado com a saúde. Teima em usar remédios caseiros. Gostaria de pegá-lo à força e tratar, mas no momento preciso de cuidados também. A labirintite não se vai.  Agora sim, o dia é pleno. Quero reassumir a rotina, mas vejo que ainda é cedo. Continuo de quarentena. Foi um dia bom. Os dias sempre são bons. Depende de mim. Do meu olhar, do meu sentir. É bom ter fé.

14/09/07 – Manhã. O Senado. Enquanto isso, o povo luta para sobreviver. Não são estadistas. Situação e oposição numa guerra espúria.  Não atendem aos interesses da nação. Deveria existir um acordo no sentido de votar, independente de divergências. Mas mesmo sem produzirem, o bolso deles está garantido. É uma vergonha. Não há seriedade. Tudo em nome da democracia. Para uns, quanto pior melhor, visão eleitoreira.
O dia está apenas começando. Saudade das aulas de pintura. Das telas, dos pincéis, das tintas.
Provocação. Não resisto a uma. Preciso aprender a identificar quando ela se apresenta. Nem sempre é bom aceitá-la. Calar ou contornar às vezes é mais prudente. Ficar ruminando o que falei é sinal de que o silêncio teria sido preferível. Agora já foi. Aceitar esta minha imperfeição e aprender a lição. Já ruminei demasiado este conflito, provocação x identificação. Em situações vulneráveis somos mais sujeitos à malícia alheia. O peixe morre pela boca. Ficarei mais atenta. Perdoar-se, perdoar os outros, uma maneira de superar.
Dia de sol.
Pai voltou. Precisa ir ao dentista. Providenciei isto.  Estranho isso, em meio à nossa fragilidade, atender a fragilidade do outro. Está pegando a relação de meu pai comigo. Parece que agora ele se coloca na posição de extrema carência. O que incomoda é que esta atitude de esperar de mim existe desde sempre, desde que eu era criança. *Nós, eu e minhas irmãs, tínhamos que trabalhar para ajudar a manutenção da casa. Mãe tinha uma postura mais digna. Antes era certa malandragem, agora ele exibe às escancaras a sua velhice, as suas fragilidades físicas, o seu descuido, o seu jeito alternativo de ser, a sua vocação para estar à margem do normal. Arrepia-me quando penso que tenho de me ver só com minhas dificuldades. É cansativo só dar, dar, sem nunca receber. Acho insensível esperar de mim num momento em estou vulnerável. Caberia a mim impor o respeito, mas teria de lhe negar amparo, o que me deixaria pior. Normalmente trato-o com compaixão, mas quando estou atravessando situações difíceis, faço esses questionamentos, vem à tona o quanto ele nos faltou, o quanto tivemos de nos guiar sozinhos pela vida afora. Não sei por que me vêm à lembrança meninas que são vendidas pelos pais ou as que são oferecidas para se prostituírem, em troca de míseros trocados.
Acessei o Recanto. Fiz-me presente, falando da minha ausência. Postei dois textos. Religião e política – temas proibidos. Nem sempre o debate fica no âmbito das idéias. Descamba para alfinetadas pessoais, um viés cultural, maneira de se equilibrar na crista da onda das palavras. Uma pena.
No final das contas, quando a fina camada de verniz acaba, descobre-se o rude matiz  cultural. Costumo dizer: tirando a capa, os doutores mostram um primitivismo cultural, igualando-se a peões de obra.
A tarde transcorre. Esse parágrafo sobre meu pai mexeu. Ainda não estou em condições de encarar tão profundamente alguns sentimentos. Pegou. Até parece que a cirurgia voltou a doer. Respeitar mais o momento. Pensando nisso, acho melhor não ir amanhã ao aniversário na família. Sempre existe algum conflito quando família se reúne.
Não estar em aparente atividade não significa estar inerte, para quem pensa muito. Os dias são assim. É melhor aquietar-se.

18/09/07 – Ver poesia significa fazer versos? Nem sempre. Pode estar na procura da palavra, mas ela não vem. Então fica apenas no olhar, no sentir, na carência da expressão que não se concretiza. Manhã sem sol. Ventania. Da janela, o mundo parece que hiberna. É setembro, mas a janela não mostra flores. Folhas murchas balançam sob o vento que as castigam. Mas elas resistem. A vida triunfa na natureza, mesmo quando aparentemente sucumbe. Porque tudo se renova. E renasce. De repente, clareia. O sol, mesmo que não se mostre, está sempre presente. O som do vento se mistura ao barulho da cidade, lá fora. Tudo pulsa.
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Um telefonema. Uma notícia. Alguém que se foi. Alguém que nesta vida fazia versos. Há pessoas que são movidas a conflito. Precisam de uma razão, um motivo, uma causa para lutar. Sempre. Perscruto-me. No primeiro momento, um arrepio percorre minha espinha. Depois, uma leveza, talvez um torpor, quem sabe o estar diante do imponderável nos deixe assim, sob uma paz assoladora, uma sensação de entrega, alívio.  Ainda bem que eu já tinha tomado um Dramin-B 6. Tudo gira.  Talvez mais tarde eu chore. Ou não. Virar esta página, porque outras folhas brancas se apresentam. Telas que esperam serem pintadas ou escritas, como (interrupção)...................................


18/09/2007
DIANA GONÇALVES
Enviado por DIANA GONÇALVES em 19/09/2007
Código do texto: T659717
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
DIANA GONÇALVES
São Paulo - São Paulo - Brasil
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