SEM TÍTULO

Hoje o dia não é como os outros. O sol tem um calor que fala de perto à pele. Irradia uma claridade diferente, faz ver detalhes daquela folhinha caída à beira do caminho, pedindo para ser notada.

A exuberância da brisa dá um senso de generosidade superior a outros dias. Sinto compaixão do homem sentado na calçada, mas também o sinto por mim e hoje não quero anuviar esta vida pulsante com as mazelas que ladeiam o trajeto.

Passo alheia ao horror das manchetes.

Hoje a natureza parece sorrir e a vida dá espetáculo de cores, sons e luz.

Sigo como viajante num trem-bala a ver a paisagem que passa. É tudo muito calmo.

Hoje não quero saber de estórias nem histórias desses que se movem à minha volta e passam como personagens num cenário de sonho.

Hoje vivencio o renascimento e por enquanto é tudo calma. O mundo recepciona este novo ser que desperta sem perguntas, respostas, sobressaltos ou pretensões.

Não sei se tudo é novo ou velho, bom ou ruim, ainda não tenho formulados conceitos, julgamentos, gostos, idiosincrasias, dialéticas.

Tudo à minha volta simplesmente é. Observo. Deixo as horas transcorrerem a seu modo, e aos poucos, que as coisas se acerquem de mim, no tempo para o conhecimento mútuo.

Sou espectadora muda, quase invisível, um ser quase abstrato, a passear no meio de tanta concretude.

Recém saída do limbo, quero o tempo de que preciso para conformar-me ao ambiente que me cerca.

É a paz, o paraíso ou o inferno, num instantâneo, possível e absurdo.

15/05/2007