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Sinto Farta Di’ocê!

Tudo que’o tô sintindo agora é como deitá meu corpo todo mulambento ni’uma cama di treis péis, proque agora que vancê si deixô se cunsumida por esse chão santo di Deus, nunca mais eu vou’sê eu memo, viu!? 

Da cepa que tu vieste guardei todas as lembranças; quando fiz o meu ranchinho, a primeira coisa que maginei foi rancá ocê dos braços daquele mardito caboco beberrão. Oh, mais como eu tinha reiva, e inté uma ciumera danada só di sabê qui as mão daquele bicho nojento que o diabo feiz, tocava no teu corpinho di princesa. 

Dispois ti apertava, apertava contra o peito pra tu gemê. Acariciava teus cabelos e tamém escuitava tua voiz inté o infeliz dormi babando incima diocê, iguarzinho a um bode véio e catinguento de cachaça.
Mais num deu otra, criei coragem e botei o matuto pra amolá notras paragens, sô! Onde se viu um sujeito tão safado assim!? Fiquei cheio de aligria proquê aquela coisa ruim nunca mais vortô pr’amolá eu i’ocê. 

Ah, como era bão vortá do trabaio e ti pegá nos braços! Ti acariciá... Era tanta filicidade que’o nem criditava que era vivo. E nos finar de semana então!? A gente ficava garrados inté pra durmi!

Só que agora, óia só o que sobrô di eu, meu Deus!? Um mulambo quarqué, sem distino e sem sustança nos órgos do corpo. Por esse mutivo sei que a marvada da sorte vai mi lançá, loguinho, loguinho prôs braços da morte.
Sabe! Num faço nenhuma questão mode que nem tenho mais razão pra vivê. Os grãozinhos di terra que cerca meus péis tão fuginho deles sô. 

E meus dedos, quasi infriquissíveis, estão sem força tamém. Minhas mão cheias de calo não vão mais podê sigurá as ferramentas na labuta.
Oh, ingrata sorte! Como é difici ti suportá; como amarga essa sequidão qui tá aqui no gogó. Inté a danada da passarinha temô di duê. 

Meus’óios num pode mais inxergá as istrelas e nem o clarão da lua cheia. Isso é sofregidão dimais da conta, sô!
I quando eu prego a pensa nisso, viche! Mi dá uma baita sardade di voismicê, sabia!? 

Só di lembrá do seu corpinho esberto meu peito já qué isprudi di dô. Dá um nó na guela qui só vendo.
Daí, óz’ios si enchi d’água proquê num posso mais abraçá ocê, nem escuitá o som choroso da tua voizinha matrera...

Oh vida marvada, sô! Mais proquê tem que sê assim? Você já a terceira que me deixa! Assim eu num guento!
Si Nosso Sinhô lá du céu m’iscuitá eu quero que Ele num tenha nenhum pinguinho di dó di eu mode quê agora prifiro sê levado pro berço das armas perdidas; eu num tenho mais nada nesse mundo; meu jardim nem dá mais frô... 

Pur’iço quero ser cunsumido iguarzinho a cepa que originou ocê. Daí nóis vira cinza pra ficá tudo a mema coisa. Assim ninguém mais vai si lembrá da gente, não é verdade? Cantadô serve sô pra isso memo...

No dia seguinte, antes do sol raiar, o capiau acordou sentindo algo liso e úmido roçando seus beiços inchados. Era o seu vira-latas convidando-o para levantar-se. De orelhas apontadas para frente e olhos esbugalhados o pangaré também mirava seu dono sem a mínima idéia de como poder ajudá-lo. 

Desnorteado, e com os fundilhos cheirando a urina o caboclo passou as mãos na cara amassada, empoeirada e resmungou:

Pois é, ocê foi mais uma quisi foi, né!? Qui farta que’o vo’sinti di’ocê! 

Sob os cascos do tal equino se encontrava toda a razão daquele profundo lamento. Sua tão estimada violinha jazia ali em dezenas de pedaços com as cordas enroladas em uma das patas traseiras do animal.
Milton Cavalieri
Enviado por Milton Cavalieri em 23/10/2005
Reeditado em 02/11/2006
Código do texto: T62786
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Sobre o autor
Milton Cavalieri
Londrina - Paraná - Brasil, 62 anos
78 textos (13704 leituras)
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Milton Cavalieri