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CONCEITOS DE LITERATURA

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Estudos Literários

 

CONCEITUAR, E NÃO DEFINIR, A LITERATURA.

Não é de hoje que os estudiosos vêm procurando conceituar a Literatura de um modo convincente e conclusivo. Porém por mais esforços que tenham sido feitos, o problema continua aberto. E por quê? Ora, pelo simples fato de que nesse particular, somente podemos usar conceitos, nunca definição.

A Definição pertence ao campo da ciência. Definir é dar uma explicação precisa, exata de algo. Assim, quando dizemos que água é [H2O], estamos dando uma definição, pois os termos do enunciado correspondem à essência da água e tão somente a ela. Além disso, tal definição é aceita universalmente, pois se baseia no raciocínio, ou melhor, no emprego da razão.

O Conceito, por sua vez, é feito de acordo com as impressões mais ou menos subjetivas que cada um retira do objeto. Assim, quando conceituamos o amor, este conceito é feito levando em conta a forma como esse sentimento se manifestou em nós. Da mesma maneira, quando dizemos que "belo é o que agrada", estamos tentando conceituar o "belo" de uma forma que procura inutilmente ser universal. Basta uma análise superficial deste enunciado para que ele se revele incapaz de satisfazer a todos. Tudo o que agrada é belo? O que desagrada não pode ser belo? E quando um mesmo objeto agrada uma pessoa e desagrada outra? O feio para uns não pode ser belo para outros?

OS CONCEITOS DE LITERATURA

Não é fácil o trabalho de conceituar a Literatura. Por trás de todo conceito haverá sempre um posicionamento crítico. Todavia, colocaremos alguns conceitos, em relevo, para que possam fazer suas avaliações:

Um dos mais antigos textos sobre o conceito de Literatura é a Poética, de Aristóteles (que inaugurou a longa série de estudos). Nesse texto, o filósofo grego afirma que "arte é imitação (mímesis em grego)". E justifica: "o imitar é congênito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois de todos, é ele o mais imitador e, por imitação, apreende as primeiras lições), e os homens se comprazem no imitado". O que ele quer nos dizer é que o imitar faz parte da natureza humana e os homens sentem prazer nisso; em síntese, arte como recriação.

A literatura nos permite viver num mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. (Mário Vargas Llosa)

Literatura é a imortalidade da fala. (August Wilhelm)

É com bons sentimentos que se faz literatura ruim. (André Gide, escritor francês)

A distinção entre literatura e as demais artes vai operar-se nos seus elementos intrínsecos, a matéria e a forma do Verbo. De que se serve o homem de letras para realizar seu gênio inventivo? Não é, por natureza, nem do movimento como o dançarino, nem da linha como o escultor ou o arquiteto, nem do som como o músico, nem da cor como o pintor. E sim – da palavra. A palavra é, pois, o elemento material intrínseco do homem de letras para realizar sua natureza e alcançar seu objetivo artístico. (Alceu Amoroso Lima)

A Literatura obedece a leis inflexíveis: a da herança, a do meio, a do momento. (Hypolite Taine, determinista, século XIX)

A Literatura é como as demais formas de arte, tem a capacidade de provocar no leitor um estranhamento diante da realidade, como se a víssemos pela primeira vez, sob um prisma diferente. (Chklovski, escritor russo)

A Literatura é arte e só pode ser encarada como arte. É a arte pela arte. (Doutrina da «arte pela arte», fins do século XIX)

A Literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem. (Louis de Bonald, pensador e crítico do Romantismo francês, início do século XIX)

O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate. (Jean-Paul Sartre)

A literatura é como o sorriso da sociedade. Quando a sociedade ela está feliz, o espírito se lhe reflete nas artes e, na arte literária, com ficção e com poesias, as mais graciosas expressões da imaginação. Se há apreensão ou sofrimento, o espírito se concentra grave, preocupado, e então, histórias, ensaios morais e científicos, sociológicos e políticos, são-lhe a preferência imposta pela utilidade imediata. (Afrânio Peixoto, Panorama da Literatura Brasileira)

Literatura é a linguagem carregada de significado. Grande Literatura é simplesmente a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível. A literatura não existe no vácuo. Os escritores como tais, têm uma função social definida, exatamente proporcional à sua competência como escritores. Essa é a sua principal utilidade. (Ezra Pound, poeta, teórico e crítico de literatura norte-americano)

Afrânio Coutinho, em suas "Notas de Teoria Literária", contribui com este magnífico conceito: A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada, através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferente dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mais medidas pelos mesmos padrões das verdades ocorridas. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido de vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida. A Literatura é, assim, vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana.

A obra literária não é pura receptividade imitativa ou reprodutiva, nem pura criatividade espontânea e livre; mas "expressão" de um sentido novo, escondido no mundo, e um processo de construção do objeto artístico, em que o artista colabora com a natureza, luta com ela ou contra ela, separa-se dela ou volta a ela, vence a resistência dela ou dobram-se as exigências dela. [...]. O artista é um ser social que busca exprimir seu modo de estar no mundo na companhia de outros seres humanos, reflete sobre a sociedade, volta-se para ela, seja para criticá-la, seja para afirmá-la, seja para superá-la. (Marilena Chauí, Convite à Filosofia)

Apesar das diferenças e por vezes antagonismos presentes nessa pequena amostragem, podemos retirar dela alguns fatos inegáveis:

a) A Literatura é uma manifestação artística.

b) A linguagem é o material da Literatura, isto é, o artista literário trabalha com a palavra.

c) Em toda obra literária percebe-se uma ideologia, uma postura do artista diante da realidade e das aspirações humanas. ®Sérgio.

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Ajudou na elaboração da Introdução: Moisés, Massaud; A Criação Literária. São Paulo: Cultrix, 1966.

Se você encontrar omissões e/ou erros (inclusive de português), relate-me.

Agradeço a leitura do texto e, antecipadamente, quaisquer comentários. Volte Sempre!

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 31/10/2006
Reeditado em 23/02/2011
Código do texto: T278085
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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 67 anos
1281 textos (15346775 leituras)
7 e-livros (6392 leituras)
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Ricardo Sérgio



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