Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O CONTO – ARQUITETURA CLÁSSICA

----------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

"Ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, Mas por haver decidido dizê-las de determinado modo.” (Jean-Paul Sartre)

 

Este texto objetiva iniciar o leigo e o escritor iniciante nas técnicas do conto. Leia, e, por fim, assente ou alargue seus conhecimentos mediante outras leituras.

Conto é uma narrativa breve, que se passa, não raro, em um único lugar, abrangendo um espaço de tempo curto (podendo até não existir) e com número reduzido de personagens. Há contos, como os de Machado de Assis nos quais, simplesmente, nada que acontece. O essencial está no ar, na atmosfera, na forma de narrar, no estilo. 

Sem levar em conta o próprio conto, a característica mais importante da prosa ficcional é o drama; se não há drama, não há conflito e, portanto nem história. E mesmo que houvesse uma história sem drama, sem conflito, não despertaria interesse nenhum.

Sendo uma narrativa curta, o conto rejeita as divagações, as extrapolações e os rebuscamentos na linguagem: é objetivo, vai direto ao ponto sem se deter em pormenores. O passado e o futuro não lhe interessam porque são irrelevantes. E quando, porventura, se fizer necessário mencionar acontecimentos precedentes, o contista sintetiza-o em poucas linhas (síntese dramática).

O conto visa, em toda a vida da personagem, apenas um momento, o mais importante, pouco interessa o que está antes ou depois desse momento, desse drama. Para ilustrar essas características, recorro a Missa do Galo, de Machado de Assis, constituído de um único episódio que tem como personagens o narrador (jovem de dezessete anos) e sua hospedeira, D. Conceição, casada e com trinta anos. Entre os dois o diálogo cheio de implicações sexuais gerando o único e mais importante conflito na trajetória do protagonista. E, fechado o parêntese em que se armou à narrativa, a vida dessas personagens regressa a obscuridade que abandonaram por um breve momento.

Do ponto de vista histórico e da sua essência, o conto é a matriz da novela e do romance. Mas isso não quer dizer que possa neles se converter. O conto está subordinado a leis específicas que se desenvolveram e se cristalizaram no decorrer dos séculos. Apresenta estrutura própria, diferente das demais formas narrativas, principalmente da crônica e do apólogo. Se um conto é ampliado até as dimensões da novela ou do romance, é porque não se trata de um conto, mesmo que seu autor o considere, impropriamente, como tal; e sim um embrião de novela ou de romance. Da mesma maneira, uma narrativa rotulada de romance ou novela não pode ser convertida num conto. Se forem, é porque não se tratavam de um romance ou novela. Num caso e noutro, qualquer alteração modificaria radicalmente o caráter da obra. Na nossa literatura, encontraremos alguns romances que, na verdade, não são romances e sim contos interligados e totalmente desmontáveis. É o caso de Vidas Secas (Graciliano Ramos); alguns romances de Bernardo Guimarães e de Machado de Assis, mestre nessa arte.

Assim, podemos chegar a conclusão de que a estrutura do conto, embora admita numerosas variações, não deve ser confundida com nenhuma outra forma de narrativa.

 

ARQUITETURA CLÁSSICA DO CONTO TRADICIONAL

A arquitetura clássica do conto tradicional é construída obedecendo às leis da causalidade e temporalidade, - um fato anterior causa o que vem depois - que determinam a seqüência: princípio, meio e fim, natural nos contos tradicionais, mas que podem ser alterados segundo as intenções do ficcionista. No conto tradicional encontramos a seguinte arquitetura:

Situação Inicial ou Exposição

• Os contos começam habitualmente pela exposição de uma situação inicial. Enumeram-se os personagens ou o futuro protagonista é apresentado simplesmente pela menção do seu nome ou pela descrição do seu estado.

Parte Preparatória ou Evolução

• Nesta fase da narrativa, o conto vai apresentando os elementos necessários à sua evolução, anunciando as peripécias (fatos e ações) que só terão lugar na 3ª parte da narrativa.

Clímax ou Nó da Intriga

• Esta é a parte mais movimentada de um conto. A partir das duas primeiras fases, a narrativa ganha dinamismo e evolui em cadeia, num avançar sucessivo de ações (peripécias), que vão culminar na parte final - o desenlace ou desfecho.

Desenlace ou Desfecho

• Entende-se por desenlace um evento ou conjunto de eventos que, no termo de uma ação narrativa, resolve tensões acumuladas ao longo dessa ação e institui uma situação de relativa estabilidade que em princípio encerra a história; uma morte, um casamento, uma conquista ou um reencontro são alguns acontecimentos suscetíveis de constituírem desenlaces.

Síntese

● Reduzindo o texto a uma síntese, teríamos o seguinte:

1 – Unidade Dramática => uma só célula dramática (um só conflito).

2 – Unidade de Espaço => um só lugar.

3 – Número reduzido de personagens.

4 – Diálogo dominante.

5 – Descrição tende a anular-se.

6 – Narração concisa.

7 – Dissertação praticamente ausente. ®Sérgio.

Tópicos Relacionados:

O Conto e Sua Estrutura Tradicional (clique no link)

Conceitos de Escritores sobre o Conto (clique no link)

Tipos de Contos (clique no link)

Noite na Taverna – O Conto Macabro (clique no link)

________________________________

Informações foram retiradas e adaptadas ao texto das seguintes obras:

Massaud Moisés - A Criação Literária.

Assis Brasil - O Romance, A Poesia, O Conto, A Crítica.

Luzia de Maria Reis, O que é o conto?

Para copiar este texto: selecione-o e tecle Ctrl+C.

Se você encontrar erros (inclusive de português), por favor, me informe.

Agradeço a leitura do texto e, antecipadamente, quaisquer comentários.

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 18/02/2007
Reeditado em 16/06/2009
Código do texto: T385214

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 71 anos
1281 textos (29071410 leituras)
7 e-livros (10138 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/06/19 12:26)
Ricardo Sérgio