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Texto

                       Chapeuzinho Amarelo: 
                 o poder emancipador da palavra


Era a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.

Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.

Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.

Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.
Era a Chapeuzinho Amarelo…

E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.

Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.

E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.

Finalizando…

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.

O lobo ficou chateado de ver aquela menina
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.
O lobo ficou chateado.

Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!

Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO

Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.
Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu de chocolate.

Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.

Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:

O raio virou orrái;
barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.

                                 FIM

( Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:
o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os tronsmons).


                                          Introdução
        Trata das aventuras de uma menina que tinha medo de tudo.  Sabendo que havia um lobo no outro lado da montanha, decide sair em busca de uma resposta para suas dúvidas e receios e também para satisfazer a sua curiosidade.

      Essa mocinha sofre de um mal terrível: sente medo do medo.  Enfrentando o Desconhecido (o Lobo), ela supera seus temores e inseguranças, encontrando a alegria de viver.

     Uma reescritura interessante do conto clássico quase homônimo.  Com bastante inventividade estimula, desafia a imaginação do expectador, ao inverter a históia original.

      Assim, as personagens Chapeuzinho Amarelo e Lobo dialogam com a versão tradicional do conto "Chapeuzinho Vermelho", dos Irmãos Grimm.

      A mudança de cor das suas roupas contém uma simbologia às avessas: o vermelho é associado à pureza, e o amarelo, ao medo que ela tinha de tudo.

      Devido ao profícuo trabalho com a palavra, os mecanismos de estilo usados nos processos de atualização do texto funcionam de forma competente.  Distanciam-se assim de outras abordagens do conto tradicional, fazendo do livro uma obra digna de apreciação, de uma leitura realmente poética, a partir de seus efeitos lúdicos.

     Chico Buarque elabora um texto que valoriza a linguagem, produzindo um discurso com sentidos novos, repleto portanto de polissemia.  Já através do próprio título, o livro traz a marca da relação intertextual com o conto universalmente consagrado.
 
     Naquela narrativa, o Lobo ocupa a posição de dominador, com suas características de maldade e agressividade; e Chapeuzinho ocupa a posição de dominada, com suas características de ingenuidade e impotência.

      A paródia de Chico Buarque, ao contrário, trabalha com a desconstrução dessas imagens e o deslocamento dos sentidos, através das pistas que fazem surgir a imagem de Chapeuzinho Amarelo, forte e dominadora, e do Lobo, fraco e dominado. 


     1 - De João, Gabriel e outros delírios oníricos
          Em
Fita verde no cabelo, conto de João Guimarães Rosa, o final parece imperfeito --- até difícil de aceitar.  Todavia, refletindo melhor, esse final se basta: narrou-se a fábula por completo.

    
 João não fazia literatura: contemplava, através dela, algo imenso, que às vezes traduziu via verbo, essa faca de mil gumes, multilança pronta.  João impegável.  Raios partam tanta poesia (e entre nós a repartam).  Ave!

    
 
Em Crônica de uma morte anunciada, novela de Gabriel Márquez, a história se apresenta aparentemente caótica, desconexa, imprecisa: vaga ilusão.  A coerência flutua sobre o caos.  Avultam princípio, meio e fim --- só que misturados, intercalados, transpassando-se.  O romance anuncia insistentemente um assassinato, perpetrado (ou narrado com clareza maior) na última página.  Miudamente, porém, já se disse tudo através do livro.

     Do mesmo modo, a criança já internalizou, já assumiu a versão tradicional do conto
Chapeuzinho Vermelho, dos Irmãos Grimm.  Então, ela vai reentender o tema, vai transportar-se a um novo entendimento, a partir da desconstrução buarqueana, constante em Chapeuzinho Amarelo.

     
E essa nova abordagem funciona, agrega, soma, quando quebra a vitrine sagrada da tradição e nos mostra um Lobo ridículo, acovardado, desconvencido afinal de sua ferocidade --- e tudo operado por uma Chapeuzinho intemerata.

     Concluindo: há infinitas formas de narrar. Nossos conhecimentos prévios, cristalizados, são que às vezes empacam e resistem a algumas dessas formas. 


          2 - Chapeuzinho Amarelo - a própria!!  (ou quase)
               Essa obra nos remete à magia do conto de fadas
Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault, construindo um texto e atualizando o diálogo com o tradicional, estabelecendo uma relação intertextual.  Ressalte-se que há, neste novo conto, uma inversão total da história 
perraultiana.
 

     A tal apropriação, verdadeira cópia decalcada de um trabalho anterior, chamamos paródia.  Parece essa cópia algo sem valor, porém quando transporta uma nova mensagem literária, de renovada temática, moderna e atual, adquire imediato valor artístico e humano.  Tal é o caso.

     Pode-se caracterizar a narrativa buarqueana, então, como uma paródia contendo traços de elementos clássicos da literatura infantil, revestindo-os com novas roupagens, vale dizer, com novos significados metafóricos, oníricos ou alegóricos. 

     A narrativa de Chapeuzinho Amarelo funciona linguisticamente de forma satisfatória, apresentando sonoridade, musicalidade e rimas, além de ser divertida, o que atrai o público infantil ao qual se destina.

     As ilustrações de Ziraldo mantêm uma relação fiel com o texto, enriquecendo-o e ampliando seus horizontes estéticos.

     No conto de Chico Buarque --- na verdade um poema ---, o famoso Lobo Mau, personagem que na versão universal representa o castigo pela desobediência infantil, é desconstruído, tanto na linguagem verbal como na não-verbal.

     Essa nova Chapeuzinho se apresenta diferente da do conto antigo.  Aquela se distancia desta por características culturais de um novo tempo: os medos da Chapeuzinho Amarelo são marcas presentes na criança moderna e que, muitas vezes, acabam  isolando-a do convívio social. 


     
3 - De medos e ousadias
           Em sua obra, Chico Buarque vai revelar ao leitor uma menina que, ao confrontar-se com o lobo, arrebenta as cordas da opressão, do controle e se liberta do imobilismo.  Nesse sentido, vale citar ZILBERMAN (2003), que, examinando a produção nacional para crianças, destaca: 

     O processo é mais complexo quando se trata de uma literatura de denúnia social.  Trata-se, neste caso, de incorporar dados à interioridade do livro infantil, que os renegou por muito tempo.
     Por isso, sacode com as estruturas literárias, que precisam ser acomodadas à nova situação. (p.191)
 
     Percebe-se também, na nova história, uma inversão do modelo estrutural do conto de fadas.  Nesta recente  montagem, a heroína enfrenta um conflito da modernidade e, para resolvê-lo, não recebe ajuda de nenhuma entidade mágica, mas fá-lo sozinha.  

     O conto avançou séculos em séculos, o que confirma a metamorfose literária que acompanha os tempos.

     O controle do comportamento da criança, a relação de mando, a ausência de atitudes decididas, o isolamento, o encontro, a coragem, o poder da palavra são fatos destacados em Chapeuzinho Amarelo --- mas destacados em contraste com as atitudes conformadas e passivas da antiga personagem. 

     É porém o medo o tema central.  No início, a jovem se nos apresenta como extremamente triste, angustiada, que sofre de insônia, pois sente medo de tudo e esse medo a impede de viver enquanto criança, afastando-a do contexto social.

     Ao ler o novo título, o leitor busca de pronto na memória a história mundialmente conhecida.  Diferente do conto original, porém, a menina é caracterizada pela cor amarela, o que desperta o leitor para rastrear um diferencial temático: amarelo por quê? 

     A mudança do nome da menina torna-se portanto significativa, pois o amarelo significa na nossa cultura o medo, o desconforto, a aflição do desconhecido; já o vermelho entremostra a "sexualidade", a sedução, o fascínio secreto e proibido do outro.



          4 - Conexões fabulosas
        Ao analisar o conto "Chapeuzinho Vermelho", BETTELHEIM (2007) destaca que "o vermelho é a cor que simboliza as emoções violentas, incluindo as sexuais".
(p. 240)

    Para começar, Buarque cria uma versão em que uma menina se isola do mundo, dos prazeres da infância, da alegria enfim, por sentir fobia de tudo.  Ela vive numa imobilidade total, cercada de temores oriundos de proibições adultas, reguladoras do comportamento infantil, seja na família ou na escola:

            
Não ia pra fora pra não se sujar.
                   Não tomava sopa pra não descolar.
                   Não falava nada pra não engasgar.
                   Não ficava em pé com medo de cair.
                   Então vivia parada,
                   deitada, mas sem dormir,
                   com medo de pesadelo. 
 
       Essa sua postura lembra a trajetória histórica da literatura infantil, cujas obras foram, durante muito tempo, utilizadas com objetivos meramente educativos, e não lúdicos como na atualidade.

       Logo nas primeiras páginas o autor apresenta a Chapeuzinho Amarelo e, através das palavras "era" e "aquela", alerta que essa personagem não é a mesma da famosa história.  A palavra "era", que inicia o relato, também faz recordar a expressão inicial dos antigos contos de fada: "Era uma vez..."

            
Era a Chapeuzinho Amarelo.
                   Amarela de medo.
                   Tinha medo de tudo,
                   aquela Chapeuzinho.

  
       O emprego do artigo definido "a" no verso - Era a Chapeuzinho Amarelo - também sinaliza que essa Chapeuzinho não é a da obra-prima francesa.

     Nos versos abaixo e, primordialmente, no emprego da palavra "tal" (pista linguística utilizada pelo narrador), percebe-se que a mocinha conhecia alguns contos de fadas e a figura do Lobo Mau presente neles, por isso o temia tanto.

     Além disso dá para notar que esse lobo vivia em lugares distantes dos dela (estrofe mais abaixo).
Nesse ponto o narrador faz referência aos contos canônicos da literatura infanto-juvenil, apoiando-se na intertextualidade com os clássicos da tradição presentes na memória do leitor.  

     Nos últimos versos, a imagem do lobo subsiste apenas na memória da garota, pois é um personagem de "faz de conta":

                
O medo mais que medonho
                   era o medo do tal LOBO.
                   Um LOBO que nunca se via,
                   que morava lá pra longe,
                   do outro lado da montanha,
                   num buraco da Alemanha,
                   cheio de teia de aranha,
                   numa terra tão estranha,
                   que vai ver que o tal do LOBO 
                   nem existia.
  
     Devido à reiterada repetição da palavra "medo", o narrador ressalta que, apesar da distância existente entre o lobo e a menina, o temor que a Chapeuzinho sentia era intenso.  Além disso, para frisar tal temor, Ziraldo projeta uma sombra pelas pernas da menina onde se vê a boca do lobo prestes a devorá-la.

                   Mesmo assim a Chapeuzinho
                   Tinha cada vez mais medo
                   Do medo do medo do medo
                   De um dia encontrar um LOBO.
                   Um LOBO que não existia.
 
     O momento em que Chapeuzinho encontra o lobo torna-se decisivo para o desfecho, pois aí ocorre o conflito entre os personagens e a possível solução do mesmo.  Nessa passagem, a protagonista tem de enfrentar "o medo mais que medonho" que tinha, o medo de um dia encontrar não um lobo, mas O Lobo. 

     Ao mostrar esse encontro, o narrador se utiliza com propriedade do enfoque verbal para reforçar o medo que ela sentia, para dar sentido à grande fome do lobo e para fazer referência aos contos conhecidos, evidenciando assim a intertextualidade com a literatura clássica:

            
E Chapeuzinho Amarelo,
                   de tanto pensar no lobo,
                   de tanto sonhar com lobo,
                   de tanto esperar o lobo,
                   um dia topou com ele
                   que era assim:
                   carão de lobo,
                   olhão de lobo,
                   jeitão de lobo
                   e principalmente um bocão
                   tão grande que era capaz
                   de comer duas avós,
                   um caçador,
                   rei, princesa,
                   sete panelas de arroz
                   e um chapéu
                   de sobremesa. 
 
       Interessante atentar que a ilustração da página apresenta uma Chapeuzinho já sem medo do bicho.  O corpo dela está projetado para a frente.  Ela encara o lobo, demonstrando curiosidade e valentia.  Não o vê mais como um animal traiçoeiro e cruel capaz de engoli-la sem mastigar.

     Ela parece analisar o lobo e se perguntar:  "É esse o lobo do qual eu estava com tanto medo?!"

     A figura do lobo é, então, ridicularizada.  Ele aparece caracterizado de palhaço.  O processamento parodístico da história chega ao ponto máximo.

       Na página seguinte, onde ocorre o confronto, a menina percebe que o lobo já não lhe causa nenhum medo.  Quanto maior seu contato com ele, mais a intensidade desse medo vai se diluindo.  Enquanto estava só na cabeça dela, o medo era maior, era absoluto; a partir do embate ele vai diminuindo, até se extinguir...

       Essa mudança é observada pelo emprego da palavra "medo" nos versos registrados no meio do livro.  Primeiro aparece quatro vezes:
                     Foi perdendo aquele medo,
                        o medo do medo do medo..
 
depois duas vezes:
                       Foi passando aquele medo do medo...
 
e, por último, uma única vez:
                      Depois acabou o medo.
 
       Nessa mesma página percebe-se também o crepúsculo do medo pelo uso dos verbos "perder", "passar", "ficar" e "acabar":

                    Foi perdendo aquele medo,
                      Foi passando aquele medo
                      Foi ficando só com um pouco
                      Depois acabou o medo. 
 
     Outra marca linguística importante na história e bem registrada é a desconstrução da figura do lobo através da própria palavra "LOBO", que aparece em caixa alta até quando a menina o encontra;  a partir daí, ela perde o temor, e  a grafia, seguindo uma alteração semântica, se transforma em letras minúsculas: "lobo".  Assim, semanticamente, lobo se torna menos nocivo, menos perigoso que Lobo.



     5 - Diálogos obesos 
          A ilustração que acompanha esta página sugere os desafios medievais, os duelos entre cavaleiros de lança e escudo.  A menina e o lobo aparecem frente a frente com as mãos abaixadas, como se estivessem prontos para uma luta, prestes a se atacarem em defesa de seu espaço mítico, de seu terreno imaginário.

      Vale ressaltar que a partir daí o autor não mais se refere à menina como Chapeuzinho Amarelo.  A palavra "Amarelo", agora inservível, é descartada, e ela passa a se denominar apenas a "Chapeuzinho" ou a "menina".

      Fica evidente que a palavra Amarelo que compunha o nome da Chapeuzinho se referia ao medo que ela sentia do lobo e, quando esse medo desaparece, ela escapa, com talento e coragem, da prisão nominal de Chapeuzinho Amarelo.

      Na página seguinte, o lobo se revolta ao compreender que a menina não tinha mais medo dele.  Sente-se desarvorado, sem chão, sem sentido e desapontado, pois Chapeuzinho não reage conforme as suas expectativas aterrorizantes.

     Na própria ilustração desta página e da seguinte, o lobo vai perdendo sua identidade pavorosa e ganhando a imagem de um verdadeiro palhaço.

      Na tentativa de recuperar o secular papel de vilão dominador, de glutão gordo, e descobrindo-se desmoralizado, ele grita seu nome várias vezes:

                 E ele gritou: sou um LOBO!
                   Mas a Chapeuzinho, nada.
                   E ele gritou: sou um LOBO
                   Chapeuzinho deu risada.
                   E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!
                   Chapeuzinho, já meio enjoada,
                   com vontade de brincar
                   de outra coisa.
                   Ele então gritou bem forte
                   aquele seu nome de LOBO
                   umas vinte e cinco vezes,
                   que era pro medo ir voltando
                   e a menininha saber
                   com quem não estava falando.
 
      Ao ouvir seus gritos, Chapeuzinho não demonstra medo, como nas versões consagradas do conto.  E então, mais uma vez, o narrador afirma que a menina conhece as antigas histórias em que o lobo aparece como sendo mau, insaciável, destruidor.  Para afirmar  isso, usa a palavra "enjoada", no seguinte verso: 

                  Chapeuzinho, já meio enjoada...

     (Subentende-se que ela, saturada desse animal faminto que aparece em tantas histórias que ouviu ou leu, despreza suas garras e presas, que considera inofensivas.)

       Na página seguinte, a superação do medo acontece a partir da decomposição em sílabas da palavra "lobo" e da inversão destas sílabas.  O próprio lobo, através do grito e da repetição do seu nome, na tentativa de recuperar sua imagem amedrontadora, colabora para sua transformação num... "bolo"!

     As sílabas invertidas de "lobo" alteram logicamente o seu significado, dando-lhe novos e inusitados matizes semânticos.  Há nesta página uma correspondência exata da imagem não-verbal e da mensagem verbal.  A transformação do "lobo" em "bolo", através da ilustração, surpreende e encanta, alargando as fronteiras da beleza.  A partir daí, os traços aterrorizantes da fera são totalmente descaracterizados.

       No trecho a seguir o autor concede a palavra a Chapeuzinho Amarelo, que dá uma ordem ao lobo.  Esse recurso aproxima o leitor da menina, que parece estar diante dos seus olhos.  Com o discurso direto, o narrador revela uma nova Chapeuzinho, corajosa, criativa, ousada.

                 Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
                   Pára assim! Agora! Já!
                   Do jeito que você tá!
  
      O lobo então vira um "bolo" todo decorado pela imaginação da Chapeuzinho, que podia degustá-lo, mas preferiu não comer aquele bolo de lobo, porque sempre preferiu o de chocolate... 


     6 - Sem desmedidos medos.  Mocinha travessa
      A essa altura vemos uma menina capaz de fazer suas próprias escolhas, e que passa a apresentar comportamentos muitas vezes não esperados para meninas, como entrar no mato, trepar em árvores e furtar frutas. 

 
               Mesmo quando está sozinha,
                   Inventa uma brincadeira.
                   E transforma em companheiro
                   cada medo que ela tinha:
                   o raio virou orrái,
                   barata é tabará,
                   a bruxa virou xabru
                   e o diabo é bodiá.
 
     O medo que fazia tremer Chapeuzinho Amarelo e a impedia de manifestar suas vontades, seus desejos de criança, já não existe mais.

    Amadurecida, ela prova possuir discernimento suficiente para ingressar no mundo dos adultos, tomando decisões e por elas se responsabilizando. 

     Pela coragem demonstrada, a capacidade de dominar o meio circundante, a inteligência e a sagacidade, Chapeuzinho se transforma, verdadeiramente, em Chapeuzona.

     A inversão da ordem em seu favor equivale a um rito de passagem, rito que acontece quando sai da sombria floresta dos terrores para a imensa luz dos campos e vales, onde regerá para sempre seu delicado destino - já menina e moça.
 
                                          
     7 - Onde entra um senhor grego - pré-William Shakespeare -, fechando as cortinas literárias
           Numa leitura "adulta", veríamos que a história configura uma alegoria dos tempos da Ditadura, dos Anos de Chumbo, em que nada se podia dizer contra o
status quo sem ser preso e interrogado, até voltar atrás e desdizer tudo, conformando-se com o desmando, ou o excesso de mando, de controle, de ordens absurdas - como há quinhentos anos, no tempo de Galileu Galilei.

     Nesse sentido, o livro aponta para a imaculada liberdade de expressão, o gesto de insubmissão à ordem então vigente.  Procura conscientizar os leitores, convencendo-os a se sublevar e liderar a revolta, o contra-ataque, a ensaiar e desferir o discurso anti-repressão.

     Ajuda a tais conclusões o ano da sua primeira edição: 1979.  E que Chico Buarque foi um dos brasileiros mais perseguidos pelo Regime de Exceção.  E que jamais, jamais se acovardou.

     Aproxima-se o livro, assim, de uma comovente fala de "Antígona", do dramaturgo grego Sófocles:
     
"É invencível quem não tem nada a perder!"


                                                  Fim

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           Perfil do Autor:
           Francisco Buarque de Hollanda (RJ, 1944) é um músico, dramaturgo e escritor brasileiro.  Filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, iniciou sua carreira na década de 1960, destacando-se em 1966, quando venceu, com a canção A Banda, o Festival de MPB. 
 
     Em 1969, exilou-se na Itália, devido à repressão 
militar.  Retornando, tornou-se um dos artistas mais ativos pela democratização do Brasil.  Na carreira literária, foi ganhador do Prêmio Jabuti, pelo livro Budapeste, lançado em 2004. 
 
     
Casou-se com a atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas: Sílvia, Helena e Luísa.  É irmão das cantoras Miúcha, Ana de Hollanda e Cristina.

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          Notas:
      Chapeuzinho Vermelho (ou ainda Capinha Vermelha) no Brasil e Capuchinho Vermelho em Portugal, é um conto de fadas.
     Resumo da história:
     A mãe de Capuchinho/Chapeuzinho pede à menina que atravesse a floresta para visitar a avó, e para levar-lhe um pote de manteiga com um pouco de bolo. No caminho, elazinha encontra-se com o lobo, que era mau e feio. O lobo pergunta:
- Para onde você vai?
- Vou à casa da vovozinha, que está muito doente, levar-lhe um presente da minha mãe.
- Onde fica a casa de sua avó?
 
     Existem inúmeras outras versões, inclusive com outros personagens, como o caçador.  No decorrer dos tempos, o conto foi sendo adaptado para cada público, sendo no entanto mais aceita pelo público infantil.  (Wikipedia)

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As releituras do conto de Capuchinho / Chapeuzinho Vermelho
          Fonte inesgotável de questionamentos literários, o conto Chapeuzinho Vermelho vai da psicanálise, da paródia e da paráfrase, ao mundo das histórias em quadrinhos (HQs).  Antes de Charles Perrault, a mitologia grega possuía seu modo particular de transmiti-la, e depois sofreu alterações por Hans Christian Andersen e Irmãos Grimm. 
 
          Novas versões invadiram o século XX e XXI: a irreverência e o deboche em Dalton Trevisan, os desenhos de Maurício de Sousa atraindo o público mais infantil, Neil Gaiman impressionando seus leitores ao expôr uma Chapeuzinho inclinada para o mal, e Deu a louca na Chapeuzinho, filme de 2005 com paródia dos personagens. 
 
          Guimarães Rosa, em Fita verde no cabelo, traz uma leitura para adolescentes.  Ela vai desde o fluxo das fantasias de uma jovem até o momento em que se defronta com a morte de sua avó, sendo desta forma, obrigada a enfrentar seus medos, angústias e solidão. Chico Buarque faz uma paródia, Chapeuzinho Amarelo, para o público pré-adolescente.
 
          Em 2005, Ivone Gomes de Assis publicou Bonezinho Vermelho e a internet no século XXI, uma releitura parodiada, que traz as tendências da mídia virtual.  Nesta obra ilustrada, a vovozinha é uma hacker, que se disfarça até nas preferências do cotidiano, afirmando não gostar de nada que é tecnologia.  A figura "feia" da vovó tenta quebrar o mito que muitos carregam ao pensar que a voz e a escrita, suave e gostosa, dos participantes de chats, sempre pertencem a pessoas bonitas e cheias de boa intenção.  É uma obra bilíngue, para crianças e adultos. 
 
          Hilda Hilst também contribui para o estudo deste conto, com a divertida paródia A Chapéu.  A autora recria uma Chapeuzinho cafetina do Lobo.
  
Fonte: 
www.wikipedia.org.br  
Acesso: 21/03/2009.


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          Fontes de consulta:
Bettelheim, Bruno.  A Psicanálise dos Contos de Fadas.  Trad. Arlene Caetano.  438 p., 21ª ed. Editora Paz e Terra, SP, 2007.

Holanda, Chico Buarque de.  Chapeuzinho Amarelo.  36p.  Ilustrações de Ziraldo.  José Olympio Editora, RJ, 2004.
 
Santos, Leonor Werneck dos.  Articulação Textual na Literatura Infantil e Juvenil.  Apresentação da Profª Drª Ingedore Koch.  Editora Lucerna, RJ, 2003.

Sófocles.  Antígona.  143p.  Ed. Melhoramentos, RJ, 2002. 

"A  Importância do Maravilhoso na Literatura Infantil" (Cristiane Madanêlo)  
"A Moça Tecelã", de Marina Colasanti (Interpretação II)  
"A  Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim  
Charles Perrault, um francês universal
"Narração Oral e Escrita", de Regina Zilberman 


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Universidade Federal do Rio de Janeiro - URFJ
Curso de Pós-Graduação em Literatura Infantil e Juvenil
Trabalho referente ao Módulo
A Cena Escolar Brasileira.
Coordenação: Professoras Leonor Werneck dos Santos
                              e Regina Gomes.
                                               
 

J˘ do Recanto das Letras
Enviado por J˘ do Recanto das Letras em 11/10/2008
Reeditado em 12/05/2011
Código do texto: T1223432
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Sobre o autor
J˘ do Recanto das Letras
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 67 anos
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