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O DTRL te deseja uma excelente leitura, mas...

 
 
A Fogueira do Iluminado

 Acordei. Estava de pé, e bem na minha frente eu queimava, esperneava, gritava de tanta dor.  Como foi agoniante perceber que não podia fazer absolutamente nada.

  Meu pai e minha mãe seguravam, cada um, um livro de capa dura, o mesmo livro, aparentemente, não muito grande. Seu tamanho me lembrava aqueles dicionários Aurélio, que por tanto tempo e há tanto tempo, levei para escola em dias de cinta e sentimentos liquefeitos.

 Filho único, ainda uma criança de dezesseis anos de idade incompletos, lá estava eu, as chamas subindo, alcançando meus joelhos, fritando minha carne, fervendo meu sangue, queimando.

 Meu pai sempre foi um homem bom, diga-se de passagem. Lembro que certa vez ele havia me prometido uma surra de vara, mas optou por me dar apenas um pontapé. A força do seu chute em meu traseiro era comparada com o impacto de uma bola de demolição, e ele, com seus pouco mais de um metro e noventa de altura, talvez, só talvez lembrasse um guindaste.

 Minha querida mamãe, era assim que eu sempre devia chamá-la, era uma mulher um pouco mais impaciente e impulsiva. Recordo que em certa oportunidade, em um dia de chuva rasa, quando eu ainda tinha por volta dos cinco anos de idade, lá estava eu correndo peralta, avoado, pela rua, pisando e patinando sobre as enxurradas, quando recebi o golpe, um tapa tão forte na nuca que caí como se estivesse escorregando por um tobogã, deslizando pelo asfalto vivo e ralando o peito desnudo sobre o chão cinza escuro.

  Lembro ainda de ser erguido por uma força ridícula para uma mulher, diga-se de passagem, como se seus dedos retos e unhas enormes e bem pintadas, fossem alicates pressionando minha orelha com exagerada pressão.

  Mas, ainda assim, com todo esse amor, esse carinho, essa forma peculiar com que eles se comunicavam e se expressavam comigo, o único filho, ainda assim, era estranho me ver dependurado num tronco no quintal de casa, as mãos e pés amarrados e eles recitando certos louvores desconhecidos por mim, numa língua estranha, de um jeito tão macabro.
 
  “E se eu voltasse para meu corpo, e se eu pudesse apagar o fogo?” – Eu tentei, mas até me mover parecia impossível. Era como se tudo passasse em uma tela de cinema na minha frente e eu fosse apenas um mero expectador.
 
  Tentei enxergar alguma lágrima nos olhos deles, ou um pequeno sinal de tristeza, de dúvida ou de remorso, mas não, o que havia ali era certeza, um foco incrível nas palavras que eram pronunciadas e os livros erguidos aos céus daquela noite infértil.

  Sabe aquele momento romântico que você vê seus pais dando as mãos, os dedos se acasalando, se abraçando, e você querendo estar no meio deles, quase atrapalhando aquele momento. Eu vi isso, enquanto o fogo chegava a meu umbigo e meus pés já não doíam mais, ou doíam?

 - Pai? Mãe?
 
 - Aumaua touais ioris, Siertuoi! Aumaua touais ioris, Siertuoi! - Aumaua touais ioris, Siertuoi!

Que palavras seriam aquelas? Que sonho, ou melhor, que pesadelo louco era esse?

 Lembrei de um dos dias mais felizes da minha vida, quando após receber uma cintada daquelas, meu pai olhou no fundo dos meus olhos, seus dedos pesados apalparam meus ombros, estacionaram ali por alguns poucos segundos, ele tão sério e me disse bem assim:

 - Você tem um destino grandioso. Você é único, Guri!

 Aquela sensação, aquele dia, eu, eu entendi. Entendi que era importante para algo, mas para quê? Eu não sabia e nem me importava.
 
 As chamas, o calor, o vento soprando as chamas. As chamas queimando pensamentos. Pensamento queimando as chamas.

- Aumaua touais ioris, Siertuoi! – A fumaça estava tão densa, tão intensa. Quem me dera se lágrimas apagassem brasas – - Aumaua touais ioris, Siertuoi!
 
 -  Pai? Mãe? Por que estão fazendo isso? – As chamas queimando meu pescoço, meu queixo, meus lábios. A dor que eu não sentia mais, o amor que não havia, que nunca houve, que eu nunca soube o que era. Como eu podia ser tão insignificante?
 
  A verdade é que eu cresci sem conhecer membro algum da minha família, sequer meus pais, óbvio. Dos dez anos de idade em diante, passei a viver confinado em minha casa. Havia janelas, mas havia grades espessas. Havia portas, mas havia trancas, cadeados, alarmes, sensores. Eu mal podia me aproximar da porta e uma luz vermelha piscava, intermitente, mais um passo e um alarme sonoro, mais um passo e um choque na tornozeleira eletrônica. Mais um passo e uma surra, e outra.

 - O que eu era afinal?

 Um dia me deram um cão, ele era tão lindo! Corria, brincava, me lambia, cuidava de mim. Um mês depois minha mãe o chamou com uma voz doce, num tom de voz que eu, até então, desconhecia, o apanhou por trás, pelo couro dele, o ergueu a altura dos meus olhos, com apenas uma das mãos. Era um cão de pequeno porte, carinhoso, eu mal sabia a raça dele, também como saberia se meu conhecimento era tão limitado ao pequeno mundo que fui acondicionado. Ela sorriu, um riso ordinário, e com a outra mão manuseou a lâmina com precisão. O sangue jorrou, o cão ganiu fininho e ela o soltou no chão, até com tamanha leveza. Replicou seu olhar para mim e novamente com aquela voz suave, mas falando comigo, disse:

  - Abrace ele mais uma vez, só mais uma vez – Lembrei do dia que papai me bateu muito, muito mesmo. Fiquei de cama uma semana e ele chegou com algo cor-de-rosa, algo sustentado por um palito, me deu aquilo e eu mastiguei, havia um perfume diferente e aquilo derretia na boca, era doce, muito doce e me lembrava nuvens, nuvens no palito. Aquele tom era tão falso como aquela nuvem doce.

 Eu o abracei, dormi abraçado com o cão, nós dois deitados no carpete. Acordei e só havia o sangue, apenas o sangue. Somente o sangue.
Lá estava eu, no tronco, queimando. Os cabelos queimavam, os olhos queimavam, o corpo inteiro queimava. Eu vi o momento em que meus pais jogaram os livros na fogueira, entreolharam-se, cada um sacou uma arma, os olhares ainda se cruzando, passando por dentro de mim, eu no meio deles. Armas em punho, o cano de cada uma abaixo do queixo, apoiado na pele. Indicadores no gatilho. As chamas queimando.  O vento soprando as chamas. Os livros queimando, queimando... Dedos no gatilho. Tentei impedi-los, no meio deles, tentei. Consegui até gritar, ao menos acho que sim, mas as balas penetraram tão rápida e ferozmente, tão quentes e evasivas, queimando.

 Que ritual era esse afinal? Para onde eles vão? Para onde eu vou?

 Deitei-me no chão, abracei os dois, abracei com toda minha força. Como eu queria que tudo fosse um pesadelo e nada mais. Desejei ter outra oportunidade.

  Acordei e só havia sangue. Só havia sangue e uma fogueira queimando no quintal. Eu estava de pé e eles queimavam, esperneavam e gritavam de dor.



TEMA: Fogueira
Total de Palavras: 1159 palavras

 
 
 

 
  

 


  
 
 
 
 
 
 
 

 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
DTRL Desafio de Terror Rascunhos Literários
Enviado por DTRL Desafio de Terror Rascunhos Literários em 09/08/2019
Reeditado em 09/08/2019
Código do texto: T6716541
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